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25/06/1934 – T

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=86&chid=4446&w=

 

8ª Palestra em Oak Grove

Ojai, California

 

Krishnamurti: Esta manhã vou responder perguntas.

Interrogante: Devo compreender que você quer dizer com o ego, feito a partir de efeitos do ambiente, é a casca visível em torno da noz única e imortal? Essa noz cresce ou seca ou muda?

Krishnamurti: Você sabe, alguns de vocês trazem o espírito da especulação, o espírito de jogar em sua investigação da verdade. Exatamente como especulam na bolsa de valores para enriquecer rapidamente e, assim, explorar os outros, enganar os outros, através deste pernicioso hábito de jogar, assim uma mente filosófica se permite o hábito da especulação. Com essa atitude de mente você começa a investigar se existe uma alma imortal e permanente, ou um ser que é completo em si mesmo, ou uma individualidade sempre crescente, aumentando, se expandindo.

Ora, por que você quer saber? O que está por trás desta pergunta, deste espírito de especulação? Não seria melhor não perguntar, não especular, mas antes apurar se o ambiente cria esse conflito resultando nessa consciência individual de que falei ontem? Isso não seria melhor do que meramente especular, pois toda especulação sobre estes assuntos deve ser totalmente falsa, já que a pessoa não pode conceber, nesse estado de limitação, nesse estado de conflito entre o resultado do ambiente e o ambiente em si mesmo, não se pode conceber essa realidade, essa vida eterna que é a verdade. Se você diz que é a consciência sempre crescendo, sempre se expandindo, ou que isto é completo em si mesmo, eterno, eu penso que está incorreto, porque não é nenhuma destas duas coisas do ponto de vista daquilo que é inteligência. Se você está meramente especulando para descobrir se esse ser cresce, ou eternamente existe, então o resultado será um padrão, um conceito metafísico ou filosófico segundo o qual sua vontade, consciente ou inconscientemente, molda suas vidas. Portanto, tal padrão será meramente uma fuga, uma fuga desse conflito que só pode libertar o homem de sua especulação, de seu jogo.

Assim, se você fica cônscio do conflito, então verá em sua intensidade o significado da eternidade; ou seja, quando você começa a libertar a mente e o coração de todo conflito, há inteligência e, então, a eternidade tem um significado completamente diferente. É uma realização, não um crescimento. Está sempre se tornando, não em direção a um fim, mas inerentemente. Você pode compreender isto intelectualmente, superficialmente, mas não pode compreender fundamentalmente em toda sua profundidade, riqueza, se mente e coração estão simplesmente buscando um refúgio metafísico, ou tendo satisfação em especulações filosóficas.

Interrogante: Se o eterno é inteligência e, portanto, verdade, então não pode ser perturbado pelo falso que é o “eu” e o ambiente. Do mesmo modo, não há indução do falso, do “eu”, do ambiente, a ser perturbado pelo eterno, a verdade, a inteligência; pois, como você tem dito repetidamente, um não pode ser atingido pelo outro, não importa quanto esforço se faça. E também parece que através de milhares de anos da existência humana, o eterno não fez muito progresso em dissipar o falso e criar a verdade. Como eles parecem não se relacionar, segundo você, por que não deixar o eterno ser eterno, e deixar o falso ficar pior se isto agrada? Em uma palavra, por que se incomodar com o que quer que seja?

Krishnamurti: Por que se incomodar com isto? Por que você se incomoda com o que quer que seja na vida? Porque existe conflito, porque o homem está preso no sofrimento, na dor, alegrias transitórias, inumeráveis disputas, tentativas vãs, fantasias sutis, e romantismos que sempre falham; porque existe contínua luta na mente, você começa a perguntar por que esta luta existe. Se não há uma luta, por que se incomodar? Eu concordo plenamente com o interrogante, por que se incomodar com o que quer que seja se não há esta luta, a luta para ganhar dinheiro e manter esse dinheiro, a luta para se ajustar aos seus vizinhos, ambiente e condições e demandas, a luta para ser você mesmo, expressar o que sente. Se você não sente que há uma luta, então não se incomode, deixe estar. Mas eu não acho que exista um único ser humano no mundo – exceto talvez os selvagens em locais distantes da civilização – que não esteja em luta, na incessante busca de segurança, de conforto, impulsionado pelo medo. Nessa luta o homem começa a criar ideias relacionadas com a verdade como meios de fuga.

Eu digo que existe um modo de viver em que o conflito cessa totalmente, um modo de viver espontaneamente, naturalmente, com êxtase. Isto para mim é um fato, não uma teoria. E eu gostaria de ajudar aqueles que estão sofrendo, que não estão buscando um fim, que estão tentando descobrir a causa deste conflito, aqueles que não estão buscando uma solução – porque não há solução – para despertar neles mesmos essa inteligência que dissipa, pela compreensão, a causa do conflito. Mas se você não está em conflito, então não há mais nada a dizer. Então você parou de pensar, então você parou de viver, porque simplesmente descobriu uma segurança, um abrigo fora deste constante movimento da vida, que sem compreensão se torna um conflito, mas quando compreendido se torna um deleite, um êxtase, um contínuo movimento, infinito; e isso é eternidade.

Então o que é este conflito? Conflito, como eu disse, só pode existir entre duas coisas falsas, o conflito não pode existir entre compreensão e ignorância, o conflito não pode existir entre verdade e aquilo que é falso. Então a totalidade do conflito do homem, sua dor e seu sofrimento estão entre duas coisas falsas, entre o que ele considera essencial e o não essencial. Vamos considerar o que são estas duas coisas falsas; não o que foi criado primeiro, não a velha pergunta: o que veio primeiro – o ovo ou a galinha? Isso é novamente a preguiça metafísica da mente especulativa que não está realmente pensando.

Enquanto não compreendemos o verdadeiro valor do ambiente, que cria o indivíduo que batalha contra ele deve haver luta, deve haver conflito, deve haver restrição e limitação sempre crescente. Portanto a ação, como eu disse ontem, cria mais barreiras. E mente e coração – que para mim são o mesmo, eu os separo por conveniência do discurso – ficam enfraquecidos e encobertos pela memória, e a memória é o resultado nascido da busca de segurança, é a consequência do ajustamento ao ambiente, e essa memória está continuamente encobrindo a mente que é inteligência em si mesma, e assim, dividindo-se da inteligência; essa memória cria a lacuna da compreensão, essa memória cria o conflito entre a mente e o ambiente. Mas se você puder abordar o ambiente novamente e não ser sobrecarregado por esta memória do passado, que não é mais do que um cuidadoso ajustamento e, portanto, meramente uma advertência; se você é essa inteligência, essa mente que está sempre se renovando, não se ajustando, se modificando por uma condição, mas encontrando tudo de novo, como o sol numa manhã fresca, como as estrelas ao anoitecer, então nesse frescor, nessa vigilância, vem a compreensão de todas as coisas. Assim o conflito cessa completamente, porque inteligência e conflito não podem existir ao mesmo tempo. A desarmonia cessa quando a inteligência esta funcionando em sua plenitude.

Interrogante: Quando uma pessoa que eu amo, sem apego ou ânsia, entra em meus pensamentos e eu me demoro neles agradavelmente por um momento, é isto que você censura como não viver completamente no presente?

Krishnamurti: O que é viver completamente no presente? Tentarei explicar novamente o que quero dizer. Uma mente que está em conflito, em luta, fica continuamente buscando uma fuga; ou a memória do passado inconscientemente se precipita na mente, ou a mente deliberadamente se volta para o passado e vive no encanto desse passado, o que é uma forma de fuga. Ou ainda a mente em conflito, em luta, que está sem compreensão, busca um futuro, um futuro que você chama de crença, uma meta, um clímax, uma façanha, um sucesso, e foge para isso. É a função da memória ser esperta e fugir do presente. Este processo de olhar para trás não é mais do que um dos truques da memória que você chama de auto-análise, que perpetua a memória e, portanto, limita e confina a mente, banindo a inteligência.

Assim, há estas várias formas de fuga, e quando a mente deixa de fugir através da memória, quando a memória não encobre mais a mente e o coração, há, então, o êxtase de viver no presente. Isto só pode acontecer quando a mente não está mais tendo prazer no passado ou no futuro, quando a mente não cria divisão; em outras palavras, quando essa suprema inteligência que é a verdade, que é beleza, que é o próprio amor, está funcionando normalmente, sem esforço – então nesse estado, a inteligência é infinita, e então não há este medo de não viver no presente.

Interrogante: Quando o amor é livre de toda possessividade, isto não necessariamente resulta em ascetismo e por isso anormalidade?

Krishnamurti: Se você estivesse livre da possessividade, não faria esta pergunta. Antes de chegar a essa coisa imensa, você já está com medo, e, portanto, já está construindo uma parede que você chama de ascetismo. Então, vamos considerar primeiro, não se será ascetismo e por isso anormalidade, quando você está livre da possessividade, mas se essa possessividade em si cria a luta e produz o anormal.

Por que existe essa ideia de posse? Ela não nasce da insuficiência, de ser incompleto? E devido a essa insuficiência, o sexo e outros problemas assumem grande importância e, por isso, a possessividade tem um tremendo papel na vida das pessoas. Na completude, que é inteligência em si, não existe anormalidade. Mas sendo insuficiente, incompleto, conhecendo pobreza, vazio, total solidão, e a superficialidade do pensamento e emoção, dependemos de outras pessoas, de livros, de literatura, de ideias, de filosofia para enriquecer nossas vidas, e assim, começamos a adquirir, armazenar. Este processo de armazenar para ter orientação no presente não é nada mais do que o funcionamento da memória, que depende do conhecimento, que está no passado e, portanto, morto.

Como o homem de muitas posses procura conforto em suas coisas, assim o homem da pobreza, da superficialidade, da não completude, confia na posse de seu amigo, de sua esposa, ou de seu amor. E quando há liberdade destes conflitos, que só pode chegar através da vigilância, da compreensão do ambiente, e não através de esforço – onde existe esta liberdade, esta compreensão, então não há possessividade e não há anormalidade. Afinal, o ascético é aquele que se abstém da vida porque não a compreende. Ele foge da vida com todas as suas expressões; ao contrário, a inteligência nunca procura fugir de nada, porque não há nada para ser afastado; a inteligência é completa, e nessa completude não há divisão.

Interrogante: Se os sacerdotes são exploradores, por que Cristo fundou a sucessão apostólica e Buda sua assembleia?

Krishnamurti: Primeiro, como você sabe? Foi lhe dito, você leu isto nos livros. Como você sabe que eles não são fabricações dos sacerdotes para seu próprio trabalho, seu próprio benefício? Uma autoridade amadurecida pelas névoas do tempo se torna invulnerável, e o homem, então, aceita essa autoridade como sendo definitiva. Por que aceitar o Cristo ou o Buda, ou quem quer que seja, inclusive eu mesmo? Vamos antes apurar se os sacerdotes são exploradores, não meramente aceitar que eles não são, simplesmente porque se supõe que Cristo estabeleceu uma sucessão apostólica. Esse é apenas o hábito da mente preguiçosa que quer determinar tudo pela autoridade, pelo precedente, dizendo que se alguém afirmou isto, deve ser verdade, não importa se esse alguém é grande ou pequeno.

Então, vamos descobrir. Como tentei explicar ontem, as religiões são o resultado da busca do homem por segurança. E assim, quando uma mente está procurando abrigo, certeza, um lugar onde possa descansar, uma garantia de imortalidade, quando uma mente busca isto, então deve haver aqueles que confortam e satisfazem essa mente. Você pode chamá-los de sacerdotes, exploradores, mediadores, “swamis”; todos são do mesmo tipo. Ora, quando você está procurando abrigo, há sempre o medo de perdê-lo; quando está buscando ganho, naturalmente, com isto vem o medo da perda. Assim o medo da perda direciona você continuamente nesta busca de segurança, que para mim é totalmente falsa. E, portanto, uma causa falsa cria um produto falso, e este produto é o sacerdote, o “swami”, o explorador.

Por que você quer realmente um sacerdote? Como uma pessoa conveniente para casá-lo ou cremá-lo, ou para lhe dar uma benção que lavará todos os seus chamados pecados? Não existe tal coisa como pecado – existe apenas a falta de compreensão, e a falta de compreensão não pode ser lavada por nenhum sacerdote, clame ele pela sucessão apostólica ou não. Só a inteligência pode libertar você da falta de compreensão, não as bênçãos de um sacerdote, ou ir para um altar ou para o túmulo.

Você vai até o sacerdote porque ele despertará sua inteligência, lhe dará estímulo? Então trate disto como você trata a bebida. Se você é viciado em bebida, é uma pena, porque toda dependência revela falta de inteligência, e daí, deve haver sofrimento. E o homem fica preso neste sofrimento continuamente, embora ele não veja e não irá ver a causa disto, portanto, multiplica meios e modos de fuga. Mas a causa é a própria busca de segurança, desta certeza que não existe.

A mente que é inteligente não busca segurança, pois não existe lugar, nem domicílio onde ela possa descansar. A própria inteligência é tranquilidade, criatividade, e enquanto não houver essa inteligência, deve haver sofrimento. Fugir da causa do sofrimento não vai lhe conferir essa inteligência; ao contrário, isto torna você mais cego, mais ignorante; e mais e mais você sofrerá. O que lhe confere percepção imediatamente, diretamente, é essa completa intensidade da vigilância no presente. Para compreender o ambiente, qualquer que seja, existe inteligência. Aí você está além de todos os sacerdotes, além de todas as limitações, além dos próprios deuses.

Interrogante: Você se refere a duas formas de ação: reação ao ambiente, que cria conflito, e a penetração do ambiente, que traz liberdade do conflito. Eu compreendo a primeira, mas não a segunda. O que você quer dizer com penetração do ambiente?

Krishnamurti: Existe a reação ao ambiente quando a mente não compreende o ambiente e age sem compreender, assim aumentando a limitação do ambiente. Essa é uma forma de ação em que a maioria das pessoas fica presa. Você reage a um ambiente, o que cria um conflito, e para fugir desse conflito, você cria outro ambiente que você espera lhe dê paz, o que não é mais do que agir no ambiente sem compreender que o ambiente pode mudar. Essa é uma forma de ação.

E existe a outra, que é compreender o ambiente e agir, o que não significa que você compreende primeiro e, então, age, mas a compreensão em si é ação; ou seja, é sem o cálculo, modificação, ajuste, que são funções da memória.. Você vê o ambiente como ele é, com todo seu significado, no espelho da inteligência, e nessa espontaneidade de ação existe liberdade. Afinal, o que é liberdade? Mover-se como se não existam barreiras, deixar as barreiras para trás, ou criá-las enquanto caminha. Ora, a criação de barreiras, a criação do ambiente é a função da memória, que é autoconsciência, que divide a mente da inteligência. Mostrando outra vez diferentemente: ação entre duas coisas falsas, o ambiente e o resultado do ambiente, a ação entre essas duas coisas deve sempre criar, aumentar barreiras e, portanto, diminuir e banir a inteligência. Por outro lado, se você reconhece isto – reconhecimento não é uma questão de intelecto, o reconhecimento deve nascer de seu ser completo – então nessa total vigilância acontece uma ação diferente, não sobrecarregada pela memória – e eu expliquei o que quero dizer com memória. Portanto, todo movimento de pensamento e emoção assume uma nuance diferente, um significado diferente. Assim, inteligência não é uma divisão entre o objeto que é ambiente e o criador que você chama de ego. Assim, a inteligência não divide e, portanto, é em si mesma espontaneidade de ação.

25 de junho de 1934

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