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28/06/1934 – T

 

http://www.jkrishnamurti.org/krishnamurti-teachings/view-text.php?tid=87&chid=4447&w=

Nona Palestra em Oak Grove,

Ojai, Califórnia

Esta manhã desejo tratar da ideia de valores. Toda a nossa vida reduz-se a um movimento de valor a valor, mas penso existir um modo, se puder empregar essa palavra com consideração e delicadeza, pelo qual a mente pode ser libertada do senso de avaliação. Estamos acostumados a valores e sua contínua mudança. O que chamamos de essencial logo se torna inessencial, e, no processo dessa contínua mudança de valores, reside o conflito. Enquanto não compreendermos o fundamental na mudança de valores, e a causa dessa mudança, seremos sempre colhidos pela roda de valores conflitantes.

Quero tratar da ideia-raiz dos valores: se é fundamental, se a mente que é inteligência pode sempre agir espontaneamente, naturalmente, sem atribuir valores ao ambiente. Se houver insatisfação com o ambiente, com as circunstâncias, tal descontentamento deve levar ao desejo de mudança, de reforma. Aquilo que vocês chamam de reforma não passa da criação de novos conjuntos de valores e da destruição do antigo. Noutras palavras, quando vocês falam de reforma, referem-se a mera substituição. Em lugar de viverem na antiga tradição com valores estabelecidos, vocês querem, com a mudança de circunstâncias, criar novos conjuntos de valores. Onde houver este senso de avaliação, precisa haver a ideia de tempo e, portanto, contínua mudança de valores.

Em tempos de estagnação, em tempos de conforto estabelecido, aquilo que é somente a gradual transformação de valores, chamamos de conflito entre a antiga geração e a nova. Noutras palavras, em tempos de paz e quietude, ocorre uma gradual mudança de valores, em grande parte inconsciente, e essa mudança gradual chamamos de conflito entre o velho e o jovem. Já em tempos de turbulência, em tempos de grande conflito, ocorrem mudanças de valores violentas e brutais, que chamamos de revolução. A mudança súbita de valores, que chamamos de revolução, é violenta, brutal. A mudança lenta, gradual de valores é a contínua batalha que se dá entre a mente assentada, confortável, estagnada, e as circunstâncias que estejam forçando essa mente estagnada na direção de novas condições, de modo que ela é obrigada a criar um novo conjunto de valores.

Portanto, essas circunstâncias mudam lentamente ou rapidamente, e a criação de novos valores é meramente o resultado de ajustamentos a um ambiente sempre cambiante. Por conseguinte, valores não passam de padrão de conformidade. Por que vocês haveriam de ter valores? Por favor, não digam: “O que será de nós se não tivermos valores?” Eu não cheguei a isso, não disse isso ainda. Então, por favor, acompanhem meu raciocínio. Por que vocês haveriam de ter valores? Em que consiste toda a ideia de buscar valores senão um conflito entre o novo e o velho, o antigo e o moderno? Não são os valores apenas um molde, estabelecido por vocês próprios ou pela sociedade, ao qual a mente, em sua preguiça, em sua falta de percepção, deseja conformar-se? A mente busca uma certeza, uma conclusão e, nessa busca, ela age; ou ela treinou-se a desenvolver um background e, a partir desse background, ela funciona, ou ela tem uma crença e, a partir dessa crença, ela começa a colorir suas atividades. A mente exige valores para não ficar perplexa, confusa, para que tenha sempre um guia para seguir, para imitar. Assim, os valores tornam-se apenas moldes em que a mente fica estagnada, e até mesmo o propósito da educação parece ser compelir a mente e o coração a aceitar novas conformidades.

Portanto, todas as reformas em religião, em padrões morais, em vida social, e em organizações políticas são apenas ditames do desejo de ajustar-se a um ambiente sempre cambiante. É o que vocês chamam de reforma. Os ambientes estão em constante mutação; as circunstâncias estão em contínuo movimento, e as reformas são feitas só por causa da necessidade de ajustamento entre a mente e o ambiente, e não porque a mente penetra o ambiente e o compreende. Esses novos valores são glorificados como sendo fundamentais, originais e verdadeiros. Para mim, eles nada mais são do que formas sutis de coerção e conformação, formas sutis de modificação. E esses novos valores ajudam, futilmente, a realizar um reforma fragmentária, uma enganadora transformação de disfarces que denominamos mudança.

Assim, por meio desse conflito sempre crescente, criam-se divisões e seitas. Cada mente cria um novo conjunto de valores de acordo com suas próprias reações ao ambiente, e então começa a divisão entre pessoas; passa a existir diferenças de classe e antagonismos ferozes entre credos, entre doutrinas. E, da imensidão desse conflito, entram em atividade especialistas que se denominam a si mesmos reformadores religiosos e curandeiros dos males sociais e econômicos. Sendo especialistas, estão de tal modo deslumbrados pela própria perícia que só fazem aumentar a divisão e a contenda. Esses tais são reformadores religiosos, reformadores sociais, reformadores econômicos e políticos, todos eles especialistas em suas próprias limitações, e todos dividindo nossa vida e nossa atuação humana em compartimentos e promovendo conflito.

Agora, para mim, a vida não pode ser dividida desse jeito. Você não pode pensar que vai mudar sua alma e ainda assim ser nacionalista; não pode ter consciência de classe e ainda assim falar de fraternidade; nem criar barreiras tarifárias em torno do seu país e falar de unidade da vida. Se observar, verá que isso é o que você vem fazendo todo o tempo. Você pode ter muito dinheiro, condições firmemente estabelecidas em torno de si, ser possessivo, nacionalista e ter consciência de classe, e ainda assim separar essa consciência de sua consciência espiritual, na qual você tenta ser fraterno, seguir a ética, a moralidade, e tenta alcançar a Deus. Noutras palavras, você dividiu a vida em vários compartimentos, e cada compartimento encerra seus valores específicos, com o que você somente promove a exacerbação do conflito.

Essa divisão, essa confiança nos especialistas nada mais é que preguiça mental, para não precisar pensar, mas apenas conformar-se. Conformidade, que é apenas criação e destruição de valores, é ambiente ao qual a mente está constantemente se ajustando, e com isso a mente se torna cada vez mais atada e escravizada. Entretanto, a conformidade tem de existir enquanto a mente estiver atada pelo ambiente. Enquanto a mente não entender o significado do ambiente, das circunstâncias, das condições, tem de haver conformidade. A tradição é somente o molde da mente, e uma mente que se imagine liberta da tradição meramente cria seu próprio molde. Um homem que diz: “Estou livre de tradição” possui provavelmente outro molde, criado por ele mesmo, ao qual está escravizado.

Portanto, liberdade não consiste em passar de um molde velho para um novo, de uma estupidez velha para uma nova, ou da restrição da tradição para a licenciosidade da desconsideração, da falta de mente. E, mesmo assim, você pode observar que aquelas pessoas que falam muito de liberdade, de liberação, estão fazendo isso: elas abandonaram sua velha tradição e agora têm um padrão próprio ao qual se conformam, e naturalmente essa conformidade é só selvageria, ausência de inteligência. O que vocês chamam de tradição é só o ambiente externo com seus valores, e o que vocês chamam de ser livre de tradição é só a escravização a algum ambiente interno e seus valores. Uma coisa é imposta e a outra, autocriada, não é mesmo? Isto é, circunstâncias, ambiente, condições, estão impondo certos valores e fazendo você conformar-se a esses valores; ou você desenvolve seus próprios valores, e se conforma a eles. Em ambos os casos, só há ajustamento, e não compreensão do ambiente. Disso levanta-se, naturalmente, a questão de se a mente tem condições de descobrir valores duradouros, de sorte que não haja mudança constante, conflito constante criado pelos valores que a pessoa estabeleceu para si mesma, ou que lhe tenham sido impostos de fora.

O que é isso que chamamos de valores cambiantes? Para mim, esses valores cambiantes são temores cultivados. Tem de haver mudança de valores enquanto houver coisas essenciais e inessenciais, enquanto houver opostos, e toda a ideia e a grande adoração do sucesso, em que incluímos ganhos e perdas e realizações – enquanto existirem tais coisas e a mente estiver perseguindo-as como seu objetivo, seu alvo, tem de haver mudança de valores e, portanto, conflito.

Agora, o que é que ocasiona a mudança de valores? A mente, que é também coração, é confundida e obscurecida pela memória, e está sempre passando por mudança, modificando-se ou alterando-se, está sempre na dependência do movimento das circunstâncias, a falta de compreensão das quais engendra a memória. Noutras palavras, enquanto a mente estiver nublada pela memória, que resulta do ajustamento ao ambiente e não da compreensão do ambiente, essa memória tem de se interpor entre a inteligência e o ambiente, e, por conseguinte, não pode haver plena compreensão do ambiente.

Essa memória, que vocês chamam de mente, vive a atribuir e transmitir valores, não é verdade? Essa é toda a função da memória, que vocês chamam de mente. Noutras palavras, a mente, em vez de ser ela mesma inteligência, que é percepção direta, a mente nublada pela memória está atribuindo valores como verdadeiro e falso, essencial e inessencial, de acordo com sua perspicácia, de acordo com seus temores cautelosos e sua busca de segurança. Não é assim? Essa é a inteira função da memória, que vocês chamam de mente, mas que não é mente de modo algum. Para a maioria das pessoas, exceto talvez aqui e ali para alguma pessoa rara e feliz, a mente é só uma máquina, um armazém de memórias que estão continuamente avaliando as coisas que encontra, avaliando as experiências. E a atribuição de valores depende de seus cálculos sutis, sua perspicácia e má fé, com base em medo e na busca de segurança.

Embora não exista segurança fundamental – é óbvio, no momento em que você começa a pensar, a observar um pouco, que não existe segurança – a memória busca segurança após segurança, certeza após certeza, essencial após essencial, realização após realização. Como a mente está constantemente buscando segurança, no momento em que tem tal segurança, ela considera inessencial aquilo que deixou para trás. Novamente, ela só está atribuindo valores, e, assim, nesse processo de movimento de objetivo para objetivo, de essencial para essencial, no processo desse constante movimento, seus valores vão mudando, sempre coloridos por sua própria segurança e ansiedade por sua perpetuação.

Portanto, a mente-coração, ou a memória, é enredada na luta de valores cambiantes, e essa batalha é chamada de progresso, o caminho evolucionário de escolher que leva à verdade. Noutras palavras, a mente, buscando segurança e alcançando seu objetivo, não está satisfeita com ele; portanto, de novo avança e de novo começa a atribuir novos valores a todas as coisas em seu caminho. A esse processo de movimento vocês chamam de crescimento, o caminho evolucionário de escolher entre o essencial e o não essencial.

Esse crescimento é, para mim, nada mais que memória se conformando e ajustando a sua própria criação, que é o ambiente; e, fundamentalmente, não há diferença entre essa memória e o ambiente. Naturalmente, ação é sempre resultado de cálculo quando nasce dessa conformidade e desse ajustamento. Não é verdade? Quando a mente está nublada pela memória, que é o resultado da falta de compreensão do ambiente, tal mente, obscurecida pela memória, precisa, em sua ação, tentar uma fuga, uma culminância, um motivo, e, portanto, tal ação nunca é livre, é sempre limitada e está sempre criando mais obrigações, mais conflito. Assim, esse círculo vicioso de memória, sobrecarregado por seu conflito, torna-se criador de valores. Os valores são o ambiente, sendo que mente e coração se tornam seus escravos.

Pergunto-me se vocês compreenderam tudo isso. Não, vejo alguém balançando a cabeça. Permitam-me colocar a mesma ideia de modo diferente e talvez torná-la clara, se eu puder.

Enquanto a mente não compreende o ambiente, esse ambiente precisa criar memória, e o movimento de memória é a mudança de valores. A memória precisa existir enquanto a mente estiver buscando uma culminância, um objetivo; e sua ação precisa ser sempre calculada, nunca pode ser espontânea – por ação quero significar pensamento e emoção – e, por conseguinte, tal ação precisa sempre levar a cargas cada vez maiores, limitações cada vez maiores. O aumento dessa limitação, a extensão dessa prisão, é denominada evolução, o caminho de escolha em direção à verdade. É assim que a mente funciona para a maioria, e, portanto, quanto mais ela funciona, maior se torna o sofrimento, maior a intensidade da peleja. A mente cria barreiras sempre novas e maiores, e então procura outras formas de fugir desse conflito.

Então, como é que se pode libertar a mente do hábito de atribuir valores? Quando a mente atribui valores, só pode fazê-lo através do nevoeiro da memória e, portanto, não pode compreender todo o significado do ambiente. Se eu examinar ou tentar compreender as circunstâncias através de preconceitos arraigados – nacionais, raciais, sociais ou religiosos – como posso compreender o ambiente? No entanto, é isso que a mente tenta fazer, a mente que está obscurecida pela memória.

A inteligência não atribui valores, os quais nada são senão medidas, padrões ou cálculos, engendrados pela autopreservação. Então, como há de ser essa inteligência, esse espelho da verdade, no qual só há reflexos absolutos e nenhuma desfiguração? Afinal, o homem inteligente é um somatório de inteligência; ele é uma percepção absoluta, direta, sem as distorções e desfigurações que ocorrem quando a memória funciona.

O que estou dizendo só se aplica àqueles que estão realmente em conflito, e não àqueles que desejam se conformar, que desejam fazer remendos. Já expliquei o que quero dizer com reforma, com fazer remendos: é ajustamento a um ambiente criado pela falta de compreensão.

Como é que se pode ter essa inteligência que destrói a luta, o conflito e o esforço incessante que exaure a própria mente? Como sabe, quando você faz um esforço, é como um pedaço de madeira que está sendo desgastado continuamente, até não haver mais nenhuma madeira. Portanto, se houver esse esforço contínuo, esse desgaste constante, a mente deixa de ser ela mesma; e o esforço só existe enquanto há conformação ou ajustamento ao ambiente. Ao passo que, se houver percepção imediata, compreensão imediata, espontânea do ambiente, não há esforço para se ajustar. O que há é ação imediata.

Então, como é que se desperta essa inteligência? Agora, o que acontece em momentos de grande crise? Nesse momento rico em que a memória não está fugindo, nessa consciência intensa, aguda da circunstância, do ambiente, há a percepção do que é verdadeiro. Você faz isso em momentos de crise. Você está totalmente consciente de todas as circunstâncias, das condições à sua volta, e também tem consciência de que a mente não pode fugir. Nessa intensidade que não é relativa, nessa intensidade de crise aguda, a inteligência está funcionando e há compreensão espontânea.

Afinal, o que é que chamamos de crise, de sofrimento? Quando a mente está letárgica, quando ela adormece, quando condicionada à satisfação, à estagnação, e acontece algo que a desperta, a tal despertar, a tal choque, você chama de crise, de sofrimento. Agora, se tal crise ou conflito for realmente intenso, então você verá, nesse estado de sensibilidade de mente e coração, que há uma percepção imediata. Essa intensidade só se torna relativa quando a memória interfere com seus cálculos, suas modificações e obscuridades.

Por favor, espero que vocês façam experimentos com o que estou dizendo. Todos têm momentos de crise. Eles ocorrem muito frequentemente; se a pessoa estiver alerta, eles ocorrem a cada minuto. Agora, nessa crise, nesse conflito, observe, sem desejar solução, sem desejar fugir, sem desejar superar. Então você verá que a mente compreendeu instantaneamente a causa do conflito e, tendo compreendido a causa, esta se dissolve. Entretanto, temos treinado de tal modo a mente a fugir, a se deixar obscurecer pela memória, que é muito difícil ficar intensamente alerta. Então buscamos meios de fugir ou de despertar essa inteligência, o que, para mim, é também falso. A inteligência funciona espontaneamente se a mente desistir de fugir, desistir de buscar soluções.

Portanto, quando a mente não está atribuindo valores, o que é mera conformação, quando há compreensão espontânea da prisão, que é o ambiente, então há ação da inteligência, que é liberdade.

Enquanto a mente, obscurecida pela memória, atribuir valores, a ação tem de reforçar as paredes da prisão; mas, na compreensão espontânea das paredes da prisão, que é o ambiente, nessa compreensão há ação da inteligência, que é liberdade, pois essa ação, essa inteligência, não está criando ou atribuindo valores. Os valores têm de existir – valores que são circunstâncias e, portanto, servidão, conformação ao ambiente – esses valores de conformação, de circunstâncias, têm de existir enquanto houver medo, que nasce da busca de segurança. E quando a mente, que é inteligência, percebe o inteiro significado do ambiente e, portanto, compreende o ambiente, há ação espontânea que é a própria inteligência e, portanto, essa inteligência não está atribuindo valores, mas está compreendendo completamente as circunstâncias nas quais ela existe.

28 de junho de 1934.

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