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Achyut Patwardhan

COMBATENTE ANTI-COLONIALISTA E FILÓSOFO, MADRAS, ÍNDIA

 

Outro membro do grupo que acompanhava Krishnamurti foi o audacioso Achyut Patwardhan. Ardente revolucionário, era um líder entre as pessoas. Havendo vivido por longos períodos na clandestinidade, ele se camuflava buscando se esconder das autoridades governamentais. Foi ao encontro de Krishnamurti em 1947, desolado. uma vez que percebeu claramente que a luta pela afirmação e pelo poder, mantida sob controle enquanto o inimigo fora britânico, reafirmou-se em meio aos próprios indianos assim que os britânicos partiram. Além disso, o assassinato de Gandhi em janeiro de 1948 deixou o país em um frenesi de facciosismo e aflição. Essas sérias percepções incitaram Patwardhan a desistir da vida política e a se dedicar a questões mais contemplativas.

Evelyn Blau: Krishnamurti aparentemente serviu como um grande guru. De que maneira você acha que ele era diferente?

AP: Essa é uma questão muito interessante, especialmente para um homem como eu, que começou tendo-o em consideração como um guru. De que forma Krishnaji explicou que não era um guru? Nosso relacionamento baseia-se em adquirir conhecimento do outro, inspirar-se com o outro, receber orientação do outro. Krishnamurti tem insistido que, se dependemos do outro, a posição dele deve ser elevada de qualquer forma, então continuamos como seres humanos de “segunda mão”. Então devemos afirmar primeiro que há coisas que os outros não podem fazer por nós. É claro, há psicólogos e filósofos que nos fornecem importantes orientações. Um instrutor de yoga dirá como devemos nos sentar corretamente e como podemos organizar nosso dia. Todas essas informações podem ser úteis, mas Krishnaji queria que entendêssemos que há uma importante função que devemos exercer nós mesmos, que envolve entender o que ninguém mais pode fazer: observar o processo de nosso próprio ego. Olhar para o processo de nosso próprio ego é algo que ninguém mais pode fazer por nós. Assim, ele nos ajudou a entender exatamente como o pensamento e o desejo operam e como esse mecanismo de ganância em seu todo opera. Dessa maneira, ele estava seguindo a grande tradição budista. Ele a chamou de “Processo autossustentável de ignorância que não possui um início, mas que possui apenas um fim.” Essas palavras lembram as de Buda. Krishnamurti insistia que o homem deveria entender que há parte de seu desenvolvimento que é adquirida através do conhecimento, da memória, razão, pensamento e reflexão. E há também um ponto em que se enxerga o limite do pensamento, que o pensamento cria o problema e não pode resolver todos os problemas criados por ele.

Qual é a limitação intrínseca do pensamento? Ele achava que era algo que o homem deveria investigar por si próprio e que a resposta deveria ser buscada em seu interior. A capacidade e o desejo de buscar um problema e uma resposta por si próprio significava que não poderíamos nos dar ao luxo de depender de outro para descobrir a fonte de nossa inspiração e iluminação. Acima de tudo, é preciso entender o processo do ego. Agora, o processo do ego é diferente. Quando dizemos “eu”, é um ponto centrado em si próprio, mas quando dizemos “o processo do ego”, é o “eu” de todos, que inclui todos. De tal modo, usamos o “eu”, usamos nosso próprio cérebro e o processamento de nossos pensamentos para compreender o processo do ego. Esse é um fator impessoal importante. Deste modo Krishnamurti era bem diferente, uma vez que dizia que a dualidade entre o professor e o ensinado precisa desaparecer antes que seja possível compreender qualquer coisa, e compreender consiste em acabar com essa dualidade.

UMA ANEDOTA: lembro-me de estarmos sentados, alguns de nós juntos, e alguém disse, “Qual é o seu ensinamento, Krishnaji?” Krishnaji pareceu um pouco severo e disse, “Não há ensinamento.” Para aqueles entre nós que o estavam escutando, essa resposta não gerou problemas uma vez que sabíamos que o que ele estava tentando comunicar era que, caso ele dissesse qualquer coisa, isso imediatamente se transformaria em conhecimento, seria armazenado em nossa memória e usado sempre que precisássemos dele. Desse modo, ele não nos forneceria algo que nos transformaria em seres humanos de “segunda mão”. Assim, sentimo-nos castigados e nos calamos. Depois de alguns instantes, ele se pronunciou novamente, “É muito simples. Onde você está, o outro não está”, e então afastou-se.

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