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Alan W. Anderson

PROFESSOR EMÉRITO DE ESTUDOS RELIGIOSOS, UNIVERSIDADE ESTADUAL DE SAN DIEGO

São raros aqueles que podemos considerar grandes professores. Essa é uma afirmação comum e, como uma trivialidade, quase não chama atenção. No entanto, essa desatenção não altera o fato de que o óbvio oculta os mais proeminentes significados. Ao longo de milênios, praticamente sem sucesso, sábios têm enfatizado isso. O filósofo pré-socrático Heráclito escreveu que a natureza ama se esconder e que, a não ser que se espere o inesperado, não é possível encontrá-la, uma vez que ela dificilmente aparece. Na mesma linha de pensamento, o pensador seminal espanhol José Ortega y Gasset contemplou esse tema, afirmando que vivemos rodeados por máscaras.

Poder interpretar em nossa mente e desenvolver intelectualmente essas observações é uma das características de nossa espécie humana, mas sem encontrá-las visceralmente ou mesmo sermos tocados por elas emocionalmente. Uma relação com o óbvio tão destituída de vida tem nos gerado, através da tecnologia, enorme poder material sobre nosso ambiente físico. Infelizmente, ela não contribuiu em nada para o avanço da auto indagação. Sem ela a natureza humana não pode alcançar sua promessa essencial, que é tornar-se livre de mal-entendidos consigo mesma.

Como espécie, deformamo-nos quando medimos de maneira completamente abstrata nossa conduta, seja com base em memória, dogma, ideologia, autoimagem ou um colapso com a autoridade do outro. A própria imaginação, que desde a era Romântica goza dos mais selvagens louvores, também não passa de um guia abstrato. Ao contrário da natureza, a imaginação não é sua própria regra. O desejo por autocorreção inerente é o calcanhar de Aquiles da imaginação. A confiança excessiva na imaginação é o principal problema da psicologia profunda e, até que mude seu centro de gravidade, continuará falhando com a promessa apresentada por ela nos princípios de Freud e Jung.

Por mais importante que seja reconhecer a tendência ou essência constante de uma coisa, representada matemática ou literalmente, essa abstração intelectual não pode substituir a existência da própria coisa, que é repleta de mudanças incalculáveis no ir e vir de sua vida.

Uma compreensão filosófica dessa distinção entre essência e existência ainda é uma abstração. A não ser que se considere que a filosofia socrática se preocupava com a sabedoria. Infelizmente a filosofia acadêmica na atualidade apresenta pouco ou mesmo nenhum interesse na tradição da sabedoria como tal e, assim, muitos estudantes talentosos que poderiam contribuir com sua distinção se esquivam dela.

Antes de conhecer KRishnamurit, essas questões chamaram minha atenção por muitos anos. Tive o privilégio de ser convidado para compartilhar de vinte diálogos com ele, dezoito dos quais abrangem o livro “Uma Maneira Totalmente Diferente De Viver”. Os vídeos e transcrições tratam do tema da transformação humana independente do conhecimento e do tempo. Ele me causou uma profunda impressão e era a influencia mais importante de todos professores que vim a conhecer. A abordagem que ele possuía da auto indagação era lúcida, inabalável e correta. Tenho uma enorme dívida com ele.

Fiquei impressionado com sua atenção desde nossas primeiras conversas. Não havia nada inventado em sua atenção, e ela não se baseava em um esforço muscular da vontade de estar presente. Em um nível diferente, ela pode ser comparada à dinâmica do equilíbrio, como quando andamos de bicicleta, dirigimos um carro ou simplesmente caminhamos. A menos que haja um distúrbio no ouvido interno ou algum outro impedimento, a caminhada natural é auto inconsciente, mas não inconsciente. Além de força e habilidade, caminhar implica aptidão, que é um dom. Como a maioria de nós caminha, parece não haver muito, se é que algum dom nisso. No entanto, sem aptidão, nossa caminhada seria o oposto de espontânea, seria desajeitada, puramente mecânica e como se fossemos marionetes. O ato de escutar de Krishnamurti era pura aptidão. Dispunha da simplicidade e abertura de uma criança com a atenção de um guerreiro. Combinava a inofensividade da pomba com a sabedoria da serpente.

Essa forma de ser me instruiu muito sobre educação e ensino. Isso me deixou claro por que tantos alunos talentosos não chegam ao ensino superior – a principal queixa é que tudo parece irreal, não havendo relação entre pensar a vida e vivê-la.

Não sei outra maneira de lidar com essa objeção a não ser convidar o aluno a examinar seu conflito de motivos por meio de um ato de atenção puro, não como um esforço positivo, mas como um esforço negativo. Negativo, uma vez que “na atenção não há exclusão, resistência ou esforço, e, portanto, não há fronteira, não há limites”. Negativo novamente, uma vez que um ato de atenção puro não se abre para um entendimento positivo. Em vez disso, descobre a suficiência surpreendente existente naquilo que apenas não é mal-entendido. De repente, a distância entre o esforço e o objetivo já não se mantém por tempo algum entre o ato de atenção e a cura já em curso. Aqui, o tempo de resposta é exato.

Essa negação não ocorre para alcançar algo melhor. Krishnamurti afirma precisamente: “A negação é negar o que é falso sem saber o que é a verdade. É enxergar o falso no falso e ver a verdade no falso, e é a verdade que nega o falso. Você vê o que é falso, e a própria visão do que é falso é a verdade.”

Durante nossas conversas ao longo desses dezoito diálogos, outra característica da atenção como negação, no sentido acima, começou a se revelar para mim. Os diálogos não eram ensaiados de maneira alguma, mas mesmo assim procediam em uma ordem intrínseca a eles. Muitas pessoas que os viram e ouviram do começo ao fim comentaram isso comigo. Em alguns casos a observação gerou um diálogo que se moveu da mesma maneira, desde que prevalecesse um ato incontrolado de atenção.

Literalmente, o processo é um avanço. Avançar significa movimentar-se de uma fonte. Um processo completo implica um começo, um meio e um fim, e esses nós estruturais estão suscetíveis a desarranjos se não se manterem unidos por um princípio de ordem. Como observado acima, esse princípio está presente com um ato de atenção não controlado. Isso significa que não há uma organização preconcebida imposta ao ato de atenção.

À medida que os diálogos progrediam, ficou mais claro para mim a partir das declarações de Krishnamurti que, como ele mesmo disse, “o primeiro passo é o último passo”. É este primeiro passo que no início subverte o processo ou o leva a florescer. Além disso, esse primeiro passo não pode ser apenas um passo dentre os outros que se seguem. Em vez disso, é o único passo que deve informar todos os demais para que o processo permaneça sólido o tempo todo ou, para ser exato, se a cura e a saúde devem prevalecer. Nesse sentido, nunca superamos a estaca zero, e nem há necessidade para tal.

Esse primeiro passo é ver o falso no falso, e esse ver do falso é a verdade. Quão diferente isso é da noção egóica de que alguém pode ver a verdade, a bondade e a beleza pura. No sentido estrito, não há um eu aqui que faça um puro ato de atenção sobre um objeto que está lá. Assim, não há contradição entre sujeito e objeto – a contradição que, desde tempos remotos, tem gerado debates infinitamente cansativos sobre como sabemos que sabemos e sobre o dilema do livre arbítrio. A vida vivida de maneira genuinamente meditativa, isto é, com um ato permanente de atenção, não se envergonha de tais perguntas, pois mesmo quando as considera, é vivida livre de um conflito de motivos.

Faz uns vinte anos que Krishnamurti e eu conversamos e, após a conclusão de nossos diálogos, não tive a sorte de vê-lo novamente. Porém, nossas discussões permanecem comigo em espírito exatamente como há duas décadas.

Desde então, ao refletir sobre essas coisas, uma pergunta em particular ganhou importância para mim. Que recurso temos para criar e para cumprir um ato de atenção não controlado? Essa questão tem o mais pungente significado para quem pergunta “Qual é a relação entre o pensamento orientado para objetivos e a vida vivida meditativamente ou sem um por quê?”

Durante um de nossos diálogos, chamado “Ouvindo e Vendo”, Krishnamurti afirmou notavelmente que o ato de ouvir não estaria deixando nada interferir no ato de ver. Essa observação renovou minha paixão pela afirmação de Sócrates de que ele tinha um demônio que sempre lhe dizia o que não fazer e que essa voz divina o acompanhava constantemente. Pensei em dar a esse recurso o nome intuição primária. Por intuição aqui, não me refiro a uma das quatro funções da psique de Jung, uma junção preocupada principalmente com a percepção. A intuição primária, pelo contrário, não possui conteúdo e age simplesmente como um aviso. Ela encontra-se abaixo do limiar da personalidade e do eu psíquico. Não é cooptada por arquétipos, nem está sujeita às persuasões da vontade e do sentimento. Entretanto, quando esses últimos se relacionam ineptamente à intuição primária, como a voz que diz o que não fazer, essa voz fica abafada ou até mesmo inaudível. Parece que as criaturas selvagens a recebem puramente, especialmente aquelas que continuam sobrevivendo às atrocidades humanas em seus domínios. Talvez esteja aliada ao que os hindus chamam de Atman, os budistas de Suchness, e os cristãos de Espírito Santo.

Acredito que esse recurso permita que o auto indagador mantenha não confusa a função natural do pensamento linear, calculista orientado para objetivos e a vida vivida meditativamente, uma maneira de ser que se satisfaz por meio de seu próprio exercício, uma vida sem um porquê. O pensamento calculista, que se direciona para um objetivo localizado fora dos meios tomados para alcançá-lo, é necessariamente limitado pelo tempo. Alguns entenderam Krishnamurti de maneira equivocada, como um pensamento denegridor dessa ordem. Isso os levou a olhar desconfiados, até mesmo a rejeitar a tecnologia. Isso é uma leitura equivocada. Não é a tecnologia, o pensamento e o conhecimento que Krishnamurti investiga, mas o uso indevido deles.

Os pensamentos calculista e meditativo se opõem apenas no pensamento que ainda não penetrou sua operação recíproca. Um ato de atenção puro não é prejudicado por nenhuma realização prática. Pelo contrário, sem a atitude meditativa aberta à intuição primária, qualquer tipo de prática é refém de inúmeras fixações e noções aberradas. A imaginação, por todo seu serviço essencial à criatividade, facilmente promove as extravagâncias da emoção caótica.

A sólida relação entre os pensamentos calculista e meditativo não é uma coincidência de opostos, mas sua cooperação. Nessa relação, pensamento e existência correspondem, o trabalho do mundo se realiza enquanto se vive sem um porquê. Lao Tzu e Krishnamurti parecem um quando Lao Tzu diz, ” O Tao nada faz, mas ao mesmo tempo nada deixa de ser feito”.

Sou profundamente grato pelas instruções que recebi durante minhas conversas com Krishnamurti, pois elas continuam sendo uma fonte inesgotável de inspiração, sugestão e nutrição. Elas se abrem para o ilimitado.

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