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Angel Patrick Boyar

ESCRITOR, EX-DETENTO

Meu grande desejo na vida era ser alguém. Eu constantemente me via diante do medo de não ser reconhecido. Eu era atormentado pela ambição de sobressair a meus colegas, e literalmente comecei a desenvolver aquilo que acreditava ser uma figura e personalidade intrigante que atrairia a atenção do mundo e que então gozaria da glória do reconhecimento.

Cheguei à Penitenciária Estadual de San Quentin em janeiro de 1982. Fui sentenciado a oito anos de prisão por homicídio. Eu dancei! Após poucos meses em San Quentin me deparei com alguns livros de Erich Fromm e os devorei. A partir de então compreendi que minha sobrevivência na prisão dependeria de minha inteligência, pois eu não era alguém agressivo, ou fisicamente superior e nem suscetível à violência. Além disso, era e ainda sou um homem de baixa estatura. Assim, eu precisava compensar tal restrição me aproximando de alguns dos criminosos mais perigosos e violentos do sistema prisional, que não hesitariam em machucar e matar diante da menor provocação.

Cada prisioneiro tinha sua própria técnica de sobrevivência. Minha proteção era uma grande dose de autoeducação que mais tarde veio a ser a causa de muita influência tóxica, que levou ao crescente desenvolvimento de problemas internos incapacitantes, e por fim ao que eu entendia ser psicose.

Por que estou escrevendo? Bem, por muitos motivos. Nenhum que eu pense ser relevante. Provavelmente estou tentando escrever e expressar o que há aqui, o que na verdade não é tão fácil para mim, uma vez que a mente “desordenada” está sempre no caminho, bloqueando o fluxo de ideias.

Na verdade, o que pode ser dito quando nada pode realmente surgir de nosso vazio interior?

Estamos sempre tentando preencher o vazio com “algo” – qualquer coisa que nos ajude a escapar da realidade da existência “como ela é”. Não podemos fugir de tudo aquilo que tememos – não há nada no que se apoiar, não há identidade isolada – há apenas um vazio e nossa própria necessidade de segurança que sempre nos leva a colocar um sinal de “reparar” em tudo, como se pudéssemos manter ou cultivar os sentimentos que nos proporcionam a experiência de estar vivo.

Identidade e vida são sinônimas: estar vivo é ser alguém.

“Você quer ser um herói?” Depois de quinze anos essas palavras ainda ecoam em minha mente, e se mostraram proféticas.

Foi meu pai quem perguntou se eu queria ser um herói. Mas o verdadeiro significado dessas cinco palavras está começando a ter seu principal impacto enquanto eu contemplo suas conotações existenciais.

Meu pai sabia o que estava dizendo quando disse aquelas palavras proféticas. Ele sabia por que eu estava correndo pela vizinhança agindo como um “vato loco”: eu queria ser um herói!

Como Nostradamus, meu pai observou o futuro como um antigo profeta e viu a profecia se realizando em minha vida.

Meu pai não precisava ser dotado de inspiração para perceber a ampla visão que se desenrolava diante de seu olhar penetrante. Naquele dia eu contemplei os olhos de meu pai… o único herói, cuja atenção teria me proporcionado a vida que eu buscava desesperadamente em vão, ao cometer atos de maldade estúpidos e audaciosos. Tais atos visavam construir uma reputação onde viveria para possivelmente ser reconhecido e assim voltar à vida real com uma identidade estabelecida, o que vim a aprender ter sido sempre uma imagem erroneamente projetada de um ser humano “assustado”, que tinha medo de ser um ninguém, nada. Um ser sendo ainda paradoxalmente compelido por pensamentos, sentimentos e crenças inevitáveis de que a experiência de estar vivo só poderia surgir quando me tornasse alguém aos olhos e mentes de todas as outras pessoas.

Na prisão, a maioria dos prisioneiros luta para ser alguém, especialmente aqueles que fazem parte de gangues na prisão.

A imagem é o bem mais valioso e está ligada à crença de que ser reconhecido como “alguém” é um poder – e praticamente não há regras sobre o que se pode fazer para criar uma imagem pública que valha a pena ser reconhecida e admirada na prisão.

Foi a experiência na prisão que me ensinou que a única coisa sagrada para o homem é o poder. Na prisão, ou você é alguém ou você não tem poder algum! Ser alguém na prisão significa pertencer a algum grupo, e o único fio condutor que governa as atividades do(s) grupo(s) é o “Super-homem” de Nietzsche.

Estes homens sabem instintivamente que não há espaço para fraqueza em um universo em expansão, que o poder é a única coisa que o homem respeita. E esses grupos têm se tornado, por assim dizer, entidades cabalísticas de violência organizada, havendo estabelecido uma reputação de serem assassinos. A identidade deles não representa quem eles realmente são, mas sim o que eles têm poder para fazer – tirar vidas!

A Máfia Mexicana é uma respeitada e notória gangue de indivíduos sanguinários que há muito tempo domina os prisioneiros nas instituições penais da Califórnia. Seus membros são respeitados principalmente pelos prisioneiros mexicanos mais fracos e não organizados devido ao medo, e são adulados por aqueles que aspiram ser mafiosos, que os consideram heróis e semideuses.

Muitos prisioneiros chicanos desejam e aspiram tornar-se membros da Máfia Mexicana, pois pela maior parte de suas vidas vivem com um baixo senso de autoestima, uma imagem ruim de si mesmos e uma pseudoidentidade como bandidos que se tornaram um estigma, desde o advento dos tempos de Pachuco e do “ternos zoot”; um futuro adverso que o chicano tem sido incapaz de superar.

Alvo de desprezo e preconceito da sociedade majoritariamente anglo, é forçada a se reunir em bairros miseráveis, tendo recusada a entrada na sociedade em geral, a juventude chicana ficou alienada, e as famílias que antes se mantinham unidas pelos valores familiares paternalistas do velho país começaram a se desintegrar, uma vez que o chefe de família não podia mais imprimir respeito (tendo perdido o respeito por si próprio) nos filhos por não lhes proporcionar um ambiente doméstico adequado e decente. Precisando trabalhar longas horas em empregos servis por um salário mínimo, a autoridade dos chefes de família em casa começou a decair. O chefe não podia supervisionar adequadamente uma casa cheia de filhos.

Sem estabilidade em casa, com supervisão inadequada e falta de consideração básica perante jovens em crescimento, que precisavam de atenção para se sentir amados e cuidados, os jovens saem às ruas e começam a andar com amigos e amigas que se tornam uma família substituta no bairro.

Ele se associa ao vato loco na prisão. Está perdido, sozinho, alienado e sofrendo para ser alguém. E a única imagem que ele tem de si mesmo é o estereótipo gangster cercado e admirado por lindas damas da noite. Dono de bens valiosos, temido pelos outros e respeitado como alguém importante, porque agora ele é o modelo do chamado Sonho Americano, o que na verdade é uma ilusão. Por alguns momentos efêmeros ele transcende sua pobre imagem para se banhar em uma autoglorificação egoísta enquanto contempla o poder que tem sobre aqueles a quem explora devido a sua posição e por ser membro da Máfia Mexicana.

Enquanto estava na prisão, comecei a ler e estudar muitos livros sobre filosofia, espiritualidade, religião, misticismo oriental, metafísica oriental, psicologia e ocultismo.

Eu estava sedento por conhecimento, devorando livros que pensei que me levariam a descobrir minha verdadeira identidade e, anos depois, pude ver que tal chamado conhecimento não me aproximou de ser totalmente integro, pois eu ainda era um ser humano incompleto e fragmentado.

Por muitos anos me considerei vítima do sistema, e acreditei existirem forças do universo ocultas e poderosas sendo exercidas por homens inescrupulosos, motivados pelo poder em posições de destaque, que de alguma forma haviam explorado os segredos do universo e que estavam usando esses segredos descobertos como ferramentas para subjugar e manipular as massas para fins de exploração, a fim de permanecer no poder.

Enquanto estava em San Quentin adotei a visão conspiratória da história e da política e comecei a ler livros históricos e políticos sobre conspiração, bem como sociedades secretas e movimentos subversivos.

Naquela época, também tentava conseguir qualquer livro que abordasse lavagem cerebral, controle mental e guerra psicológica. Eu queria desesperadamente saber como estava sendo manipulado, influenciado e controlado, por aqueles manipuladores invisíveis, que eu já concluíra serem de alguma forma responsáveis ​​pela minha identidade perdida.

Mergulhei vigorosamente em meus livros sobre conspiração pensando que finalmente estava me aproximando da verdade sobre o que, como e por que isso realmente estava acontecendo e onde eu me encaixava no sistema. Iria aprender todos os detalhes possíveis dessa luta pelo poder mundial e expor essa conspiração diabólica. Ao longo do caminho fui obrigado a descobrir minha verdadeira identidade.

Tornei-me arrogante e desprezível porque me considerava membro de um pequeno círculo de pessoas, que sabiam o que realmente estava acontecendo nos bastidores do mundo. Naquela época eu não tinha plena consciência de que meu próprio senso de inferioridade junto ao meu medo de não ser nada e ninguém, me fez superestimar-me e diminuir os outros, olhando com desprezo para aqueles que eram analfabetos e ingênuos, para que eu pudesse me sentir importante.

Eu não queria compartilhar meu conhecimento com ninguém, pois, se eles soubessem o que eu sabia, eu não poderia me destacar como inteligente e único, quando desde o início eu sabia que meu motivo para me recusar a compartilhar meu conhecimento com qualquer um era exercer poder sobre eles.

Como vejo agora, meu motivo para adquirir conhecimento era totalmente por identidade, poder e segurança.

Meu cérebro parecia uma árvore de Natal e eu continuava adicionando todo esse conhecimento a ele, como se decorasse uma árvore de Natal morta, arrancada de sua fonte de vida. Esse conhecimento era para mim como as luzes da árvore, cujo brilho ofuscava as outras mentes monótonas e medíocres ao meu redor.

Pensei que eu fosse consciente, mas era muito superficial. Na minha vanglória não vi que ser conhecedor e intelectual, não me proporcionava a importante ajuda própria, que eu realmente precisava para pôr um fim ao conflito espiritual e psicológico existente dentro de mim.

Eu tinha medo de aceitar que estava completamente vazio por dentro, que eu não era nada e nem ninguém.

Hoje eu sei que a única conspiração que existe é entre mim e eu mesmo!

Li vários livros que afetaram profundamente minha mente e ingenuamente pensei que cada descoberta instigante de um conhecimento oculto da verdade revelada mudava significativamente minha consciência, de modo que gradualmente eu me libertasse de mentiras, ilusões, conhecimento falso e limitações impostas por mim mesmo. Pensei que estava progredindo, libertando-me gradualmente. No entanto, eu estava apenas me escravizando psicologicamente e exacerbando a confusão que acontecia dentro de mim, envenenando-me com as teorias de outras pessoas sobre a vida.

Por anos procurei a resposta desesperadamente nos livros, mas não percebi que todos esses livros haviam sido escritos por pessoas postulando suas próprias teorias sobre a vida. Eles eram muito bons em diagnosticar os problemas da humanidade, apontando o dedo para os culpados ​​pela criação da condição humana, mas aqueles que apontaram os dedos nunca consideraram que eles mesmos estavam criando os problemas do mundo.

O problema não é o mundo, mas a relação entre você e o outro, o que cria um problema. E esse problema, ao estender-se, torna-se o problema do mundo.

A afirmação acima é verdadeira. É um fato. Não porque Krishnamurti a disse, mas porque posso ver que isso é verdadeiro para mim. É o meu “relacionamento com o outro que cria o problema”. Nunca pensei em mim como o problema. O problema era sempre o outro!

O mundo seria um lugar melhor para se viver assim que os outros recuperassem a razão e aceitassem a verdade como eu a vi. Assim que todos começassem a ver a realidade do meu jeito e começassem a viver de acordo com a minha realidade, surgiria uma nova ordem mundial de seres humanos sãos.

A cisma no homem, a dicotomia proverbial da vida contra a morte, o bem contra o mal, o espírito contra a carne, somos nós, você e eu que perpetuamos esse conflito porque acreditamos ser necessário nos dar a experiência de estar vivo.

Testemunhei uma transformação dramática quando interrompi todos esforços para me transformar.

É a verdade que liberta, não o seu esforço para ser livre.

Por muitos anos soube-se que o “eu” psicológico era apenas uma imagem, uma projeção do eu. Era um impostor, um aspirante ao trono que havia usurpado o coração sem limites, e agora tinha o interesse de preservar sua identidade inexistente. Convenceu-se de que era o verdadeiro “fulano”, o tempo todo jogava verdade ou consequências consigo mesmo.

Durante todo o tempo pensei que estava me tornando mais sábio através da aquisição de conhecimento, mas ideias momentâneas revelaram que, à medida que eu ganhava mais conhecimento do mundo, esse conhecimento representava meu próprio estado de ignorância. Quanto mais conhecimento eu adquiria, mais eu podia ver o quão ignorante eu realmente era.

A cada momento eu pensava haver mudado e progredido na obtenção de conhecimento, mas quando verificava o trajeto percorrido me encontrava no mesmo lugar.

De fato, mesmo que eu obtivesse todo o conhecimento do mundo e do universo, eu ainda seria um ignorante. Todo este conhecimento não seria nem uma gota microscópica no balde da eternidade.

Ganhei liberdade da prisão de San Quentin em 17 de março de 1986. Lembro-me que não me senti ansioso para sair na noite anterior à minha saída. Após aproximadamente seis anos de encarceramento, pensei que deveria me sentir empolgado, que deveria estar agitado com um sentimento de euforia emocional por estar prestes a ser libertado. Eu esperava ter os sentimentos corretos ao sair pelo portão da frente da prisão e entrar no chamado mundo livre.

A manhã chegou. Os sentimentos esperados devido a importante ocasião de estar prestes a se tornar um homem livre não surgiram. Meus documentos foram processados para liberação. Troquei-me das roupas da prisão do estado para minhas próprias roupas. Recebi os duzentos dólares que tinha direito em minha saída e parti junto com os outros, sendo escoltado para a liberdade!

Atravessando a praça da capela do jardim, vi alguns amigos cujas expressões sorridentes indicavam sentimentos de paz e alegria interior. Eles acenaram adeus para mim, e eu consegui sorrir e acenar de volta. Então percebi que ainda estava no interior da prisão, e que ainda havia alguma distância para percorrer “daqui” até a liberdade “ali”, além dos portões de entrada da prisão. Finalmente cheguei, mas quando cruzei a linha final para a liberdade, nada!

Eu ainda estava na prisão! A mente fingia estar livre. Eu sabia que essa liberdade era uma ilusão. Não havia experiência de ser livre, eu não ganhei vida.

Portanto, liberdade não tinha relação alguma com estar do outro lado dos muros da prisão. Psicologicamente eu ainda estava na prisão, escravizado por paixões e desejos e cercado pela muralha chinesa de imagens e ideias, que eram as verdadeiras barreiras no caminho para a liberdade.

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