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Beatrice Wood

CERAMISTA E ARTISTA, OJAI, CALIFÓRNIA

BW: Imagino que tenha conhecido Krishnamurti em 1923. Um amigo, Reginald Pole, o levou ao meu pequeno apartamento em Nova York. Depois fomos ao Metropolitan Museum e observamos a arte indiana. Almocei com ele, seu irmão Nityananda, Rajagopal e Mima Porter, quem ele conhecera quando jovem. Almoçamos todos no Hotel Gotham. Eu era muito tímida e sentia admiração por ele.

Evelyn Blau: Que impressão teve quando o viu pela primeira vez?

BW: Bem, acho que escrevi em meu diário, “Uma das pessoas mais bonitas que já vi.” Na verdade, eu não o ouvi palestrar até muitos anos depois. Eu estava em seu primeiro acampamento em Ojai, em 1928. O acampamento durou uma semana. Almocei com ele várias vezes, uma vez que tínhamos muitos amigos em comum. Eu não era uma amiga íntima, eu era uma boa amiga. Como o acampamento durou uma semana, ficou decidido que deveria haver entretenimento, e ele me encarregou de organizar as peças de teatro. Organizamos três peças de um ato, uma de Tolstói, uma de George Bernard Shaw e acho que uma de Barry. As pessoas do acampamento que se interessaram participaram. Meu trabalho era ensaiá-las, e depois escolhemos A Luz da Ásia como uma das peças. Aquelas primeiras conversas sentados no chão sob os carvalhos foram maravilhosas. Nunca se falou em dinheiro, nada. Havia uma atmosfera maravilhosa, e eu ouvia. Eu estava lendo um outro filósofo, e depois li Krishnamurti. O achei o orador mais profundo, embora não faça ideia do quanto absorvi do que ele disse. Havia um grande silêncio nessas conversas iniciais, e lembro-me de ter acontecido a mesma coisa na Índia muitos anos depois, o grande silêncio da plateia.

EB: Você acha que foi porque as pessoas sentiram que ele era um messias? Porque houve tais proclamações.

BW: Bem, acho que teve muito a ver com isso. Durante esses primeiros anos, ele dava entrevistas com muita facilidade. Eu tive cinco com ele, e uma esteve comigo e me ajudou especialmente. Você quer que eu conte?

EB: Sim, por favor.

BW: Teve a ver com inveja. Geralmente não sinto inveja de outros artistas, mas uma vez vi um esmalte que estava tentando fazer. Fui até Claremont, e ali estava aquele esmalte que eu tinha lutado para ter e não tinha conseguido. Foi como uma reação física de inveja, e fiquei horrorizada comigo mesma. Então fui conversar com Krishnamurti. Essas não são as palavras exatas, mas é o impacto daquilo que ele me fez perceber. Ele disse algo assim, “Tudo bem, somos todos invejosos. Não tente não sentir inveja. Deixe de lado e parta para outro pensamento.” Isso me ajudou de muitas maneiras. Eu não senti inveja da arte, mas senti inveja, eu diria, das pessoas. Essa coisa de tentar não sentir inveja, mas no lugar tocar a quietude da mente.

EB: Você acha que o fato de ele ter falado tantas vezes sobre observar suas próprias reações e suas próprias respostas a tornou mais consciente? Anteriormente, a inveja poderia ter surgido em você, mas agora você estava ciente disso.

BW: Bem, isso está nos ensinamentos dele, e todo grande professor religioso que existiu ao longo do tempo disse, “Conheça a si mesmo”. E o que eu percebi em Krishnamurti é que, se eu encarar a atividade da minha mente, suas distrações, inveja, se desejar – e apenas deixar para lá – eu alcanço o que é para mim uma quietude. A questão é, como ele disse, observar momento a momento. Claro que eu não faço isso. Só posso dizer que ele teve um grande impacto em mim e que sou diferente do que seria se não o tivesse escutado.

Em 1930 ele convidou a mim e a um bom amigo meu para irmos à Holanda por uma semana, para o pré-acampamento, antes do início do encontro oficial, e houve muitos debates. Fomos à Holanda e Ommen, e estava muito frio. A maioria das pessoas ficaria em pequenas cabanas, enquanto Krishnamurti ficaria no castelo. Ele nos convidou com outras pessoas para ficarmos no castelo com ele. Ficou cercado pela multidão, e mesmo assim recusou-se a colocá-las para fora. Então, em vez disso, ficamos com o gerente do acampamento.

EB: Os debates pré-acampamento foram diferentes das conversas regulares?

BW: No pré-acampamento? Bem, esse foi o único pré-acampamento que participei na Holanda. Éramos um grupo menor de pessoas, e aqui nos Estados Unidos ele tinha pré-acampamentos também, tinha grupos de vinte pessoas, e pelo que lembro compareci a pelo menos quatro deles, mas acho que isso foi nos anos 30, não nos anos 20. As perguntas eram respondidas, e lembro que ele disse uma vez a uma mulher, “Nenhum de vocês escuta, não há uma troca real entre vocês.” Gostei dos encontros porque havia uma proximidade na qual poderíamos fazer as perguntas que desejássemos.

EB: Quando foi seu próximo contato?

BW: Bem, o seguinte foi quando vim para Arya Vihara para passar uma ou duas noites.

EB : Você morava em Ojai naquela época?

BW: Eu estava morando em Ojai e, em 1948, mudei-me para uma casa em frente à dele, então o via constantemente. Por um tempo, trabalhei para Rajagopal, mas minha vista não estava boa. Eu simplesmente não era rápida e precisa o suficiente para continuar trabalhando para ele. Nós éramos jovens na época. Todos interligados, se conhecendo.

EB : E o que te trouxe a Ojai em primeiro lugar?

BW: Ah, eu vim por Krishnamurti, sem dúvidas. Eu havia o conhecido em Nova Iorque, assim como havia conhecido Rajagopal e Rosalind. Meu coração estava despedaçado devido a uma relação amorosa, e eu precisava de algo para sobreviver. Eu conhecia Krishnamurti, e foi assim que cheguei ao primeiro Star Camp. Tenho trabalhado maravilhosamente como artista desde que cheguei aqui. Nunca gastei muito tempo pensando na escolha de me mudar para Ojai. O que me preocupava era que eu estava perdida. Meu coração estava realmente despedaçado, e eu queria que algo viesse à tona.

EB : E havia uma comunidade de pessoas interessadas em torno de Krishnamurti?

BW: Ah, sim, sempre. Huxley, é claro, Robert e Sarah Logan eram o que se chamava aristocracia. Eu odeio essa palavra, mas há uma palavra, alguma coisa alta.

EB: Classe alta?

BW: Classe alta de Filadélfia. Eles desistiram da sociedade depois de conhecerem Dr. Besant e Krishnamurti. Ele costumava falar na casa deles em Sarobia, na Pensilvânia. Depois Robert Logan comprou uma casa bem ao fundo de Arya Vihara. Eu e ele éramos bons amigos. Nos viamos todos constantemente.

EB : Eu gostaria de voltar um pouco no tempo. Você estava ciente do que havia acontecido quando Krishnamurti teve a experiência da “árvore de pimenta”?

BW: Me falaram sobre isso. Mas não estava ciente.

EB : Você conseguiu perceber alguma diferença, um novo despertar ou algum outro entendimento?

BW: Não. Não posso dizer que sim, porque sempre que via Krishnamurti, ele era apenas um ser humano, como todos nós. Ele não estava em uma árvore falando coisas elevadas. Ele ajudava quando estava em Arya Vihara, ajudava com a criação dos animais, acho que ordenhou a vaca por um tempo. Ele criou Radha, a filhinha de Rosalind e Rajagopal, ele praticamente a criou. Ele fez o que qualquer um faria. Mas ele também me ensinou, ensinar não é a palavra certa, mas ouvindo-o comecei a perceber a importância do que eu fazia no presente, para poder fazer perfeitamente. Sou muito desleixada, muito descuidada, e estou tentando observar isso. Esse foi seu impacto sobre mim. Quando eu tinha quarenta e poucos anos, entregava cerâmica a uma grande loja – meu agente havia indo embora – e o gerente uma vez disse, “Onde está sua fatura,” e eu disse, “Fatura, o que é uma fatura?” Ela disse, “É um documento.” Eu falei, “Senhora, eu sou uma artista, eu não entendo de documentos.” Ela disse, “Como você espera receber o pagamento?” E essa foi uma grande revolução na minha vida. Assim, o poder prático de sua exatidão me tornou ciente da ordem. Ele me fez ver a importância de ser verdadeira no interior. Ele me tornou ciente do condicionamento da mente.

EB : Uma das coisas importantes que ele destacou foi o que realmente acontece na mente. Essa ênfase na mente é bastante incomum, em pensar nela mesma como um obstáculo.

BW: Ah, sim. Como eu disse, estava lendo outro filósofo, muito conceituado, e então peguei um dos livros de Krishnamurti, e Krishnamurti me pareceu muito a frente em pensamentos profundos.

EB: Como você se sentiu quando Krishnamurti dissolveu a Ordem da Estrela?

BW: Bem, sou contra organizações. Não vejo como uma pessoa com o alcance dele possa trabalhar em qualquer organização. Porque no momento em que nos tornamos parte de uma organização, somos presos a rigidez e regras. Isso nunca me incomodou. Veja bem, acho que a vida é muito misteriosa, e sejamos sinceros, considerando apenas o assunto do sexo, que é um problema para todos aparentemente, de uma maneira ou de outra, digo que não conhecemos os diferentes costumes, não conhecemos. E o mais estranho é que colocamos tanta ênfase nisso em vez de nos preocuparmos em sermos  honestos em nosso interior. Para mim, esse é o primeiro ponto, e estou consciente do condicionamento da minha mente, e luto mais para ser sincera do que para fazer cerâmica ou algo assim, mas não consigo. Mas eu luto, e isso é realmente importante. Penso que para nós todos, é importante ir em direção àquilo que é honesto e compassivo, e não precisamos de uma Ordem da Estrela para isso.

EB: Você acha que a beleza física de Krishnamurti teve um impacto? Você acha que isso ajudou ou prejudicou o papel dele como professor?

BW: Eu não faço ideia. Acho que, se houvesse algum impacto, ajudaria, pois ver uma pessoa bonita nos faz sentir bem. Escuto a uma pessoa bonita muito mais rapidamente do que a uma pessoa comum, e preciso aprender a ser gentil com pessoas que não são atraentes.

EB: Você acha que isso pode ter levado as pessoas para o caminho errado? Nos sentimos atraídos por pessoas poderosas, pessoas bonitas, mas o que ele tinha a dizer era esmagador em seu impacto. Você acha que as pessoas não estavam prestando tanta atenção ao que ele estava dizendo porque se apaixonaram por esse homem bonito?

BW: Eu não tinha consciência disso, mas tinha consciência de que algumas mulheres se sentiam pessoalmente mais próximas dele do que eu, embora eu já o tivesse visto muitas vezes. Provavelmente porque eu tinha admiração por ele. Perdi um pouco dela quando me encontrei com ele na Índia nos anos 60. Eu sei que ele se opôs… essa não é a palavra correta. Ele apontou todas as minhas joias e eu afirmei que gostava delas, e eu teria até um diamante no nariz se não machucasse. Ele levantou as mãos horrorizado, e eu disse, “Krishnaji, você simplesmente não é igual as mulheres, não é provocante como nós.” Ele apontou para todas as pulseiras no meu braço. Uma mulher indiana disse, risonhamente, “Nós a conhecemos quando estávamos nos Estados Unidos, vimos as joias que você usava e rimos juntas, dizendo, ‘como será quando ela for para a Índia?’”. Agora, a mulher indiana usa muitas joias. Eu sempre amei joias, então passei a usar cada vez mais. Amo as joias desde os dezesseis anos. Supõe-se ser vulgar e de mau gosto. Eu não ligo. Gosto de joias, então uso. Fico feliz quando vejo em outras mulheres. Agora, parece-me que me faltaria compreensão se eu parasse de usar joias apenas porque havia uma possibilidade de Krishnamurti não ter gostado delas. Ele disse, “Você parece uma prisioneira com elas.” Eu tinha mais em meus braços. Apenas ri dele. “Você não sabe, você não é uma mulher”, mas ele era muito cuidadoso com a maneira como se vestia, muito mais do que eu. Ele estava sempre muito bem arrumado, impecável e elegante, então não tinha o direito de dizer uma palavra para mim! Eu estava em uma reunião na Índia e percebi, uma vez que estava muito infeliz, que a solidão era provavelmente o problema básico. No dia seguinte, fui ouvi-lo e havia uma grande multidão de indianos ao ar livre, e achei maravilhoso o jeito que trouxe à tona as travessuras da solidão do homem. Foi maravilhoso o jeito que ele fez isso.

EB: As pessoas ainda têm esse sentimento de isolamento, sentem que estão isoladas e sozinhas, e realmente anseiam por alguém para conversar sobre assuntos importantes.

BW: Principalmente o homem, apesar de ser parte da raça humana. Ele me fez perceber que a maior parte de nossa distração e atividade é buscando escapar dessa solidão. Mas se encararmos isso, a atividade da vida continua como uma música. É completamente diferente se alguém pode enfrentá-la.

EB: Qual foi a coisa mais significativa que você aprendeu ao ouvir Krishnamurti? Você mencionou ordem anteriormente, um senso de ordem …

BW: Eu não sei exatamente como responder, porque acho que tentar me livrar do condicionamento de minha mente é minha maior luta. Agora, isso não quer dizer que não devamos rir, dizer coisas tolas. É completamente diferente.

EB: Você acha que havia maneiras pelas quais Krishnamurti poderia ter sido mais claro ao expor seus ensinamentos?

BW: Eu não sei. Veja bem, ele está falando sobre o imaterial. Não podemos manter o pensamento em matéria, e ele fala tão profundamente, não vejo como isso poderia ser mais claro, mas não faço ideia do quanto absorvi. Como posso saber? Só sei que, no que me diz respeito, luto para ser um ser humano mais honesto do que se não o tivesse conhecido. Para aí.

EB: Você continuou ouvindo Krishnamurti por muitos anos?

BW: Por muitos anos, até mais ou menos quinze anos atrás, quando comecei a ficar surda. Nos últimos anos, quando voltei da Índia, comecei a ficar surda, por isso não participei, mas o li constantemente. Não todas as noites, mas muitas vezes, porque não quero ser fanática. Na verdade, todas as noites quando vou para a cama leio algo de natureza filosófica. Exceto quando quero trapacear, e eu trapaceio de vez em quando quando tenho uma história de detetive que mal posso esperar para saber o fim.

EB: Eu não acho que te culpariam por isso. De fato, é sabido que Krishnamurti gostava de ler histórias de detetive.

BW: Talvez ele também tenha trapaceado. Acho que temos que estar todos atentos ao fanatismo. Acho que temos que observar isso com muito cuidado.

EB: O próprio Krishnamurti questionava constantemente tudo. Ele questionava seus próprios pensamentos, seus próprios ensinamentos em certo sentido, para que ele não se tornasse um fanático. Ele nunca estabeleceu nenhuma lei para seguirem. Eu acho que ele foi um bom exemplo de liberdade do fanatismo. Muito obrigado pela sua contribuição. Eu tenho que cumprimentá-lo por sua magnífica memória.

BW: Eu não acho tão bom assim.

EB: Bem, aos cem anos, acho que não podemos reclamar.

BW: Tenho trinta e dois, cem apenas para o resto de vocês.

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