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David Shainberg

DOUTOR EM MEDICINA PSIQUIATRA, NOVA IORQUE

 

Nos dias 29 e 30 de abril de 1975, Krishnamurti encontrou-se com vinte psicoterapeutas em Nova Iorque. O grupo representava diferentes orientações teóricas, incluindo as de Freud, Homey, Sullivan e Rogers. Havia quatro assistentes sociais, quatro psicólogos e dezessete psiquiatras. Vários diretores de institutos de ensino de psicanalise estiveram presentes, além de um diretor de um departamento hospitalar de psiquiatria, muitos professores e várias pessoas que contribuíram extensivamente para o conhecimento psicanalítico.

O grupo se reuniu para explorar as relações e implicações do ensino de Krishnamurti em seus trabalhos diários. Cada membro sabia bem a dificuldade que envolvia ajudar outro ser humano. A partir do momento em que o debate começou, a atmosfera do diálogo se mostrou intensa, profundamente séria e respeitosa.

Devidamente, a primeira questão levantada foi: qual é a raiz do medo? Uma diferenciação útil surgiu prontamente: existe uma preocupação biológica conhecida por nós que envolve incêndios, cobras etc. Alguns chamam de domínio do “medo prático”. Krishnamurti observou que esse não é um medo psicológico, mas uma “inteligência da autopreservação.” O medo psicológico é diferente. Krishnamurti enfatizou que o medo psicológico é causado pelo pensamento. “Transformar-se,” disse ele, “com o medo de não se transformar é a raiz de todo medo.” “Se não houvesse pensamento, não haveria medo.” Um psiquiatra respondeu, “Se não houvesse pensamento, você não seria humano.” Mas Krishnamurti direcionou a discussão para que considerássemos a possibilidade de que a ausência do pensamento fosse verdadeiramente humana. Houve uma dificuldade inicial em entenderem isso, mas o grupo começou a chegar ao cerne do dilema quando Krishnamurti enfatizou a necessidade de chegar à raiz do medo, não aos seus galhos. O medo e seus galhos sempre surgem quando, em vez de ação imediata, o pensamento se desenvolve.

Psicoterapeutas usualmente focam nos pensamentos de seus pacientes, ou, se não nos pensamentos, na transformação e no ser. O terapeuta tenta ajudar o paciente a tornar-se menos temeroso, mais maduro, mais competente na sociedade. Por isso, foi um choque para muitos considerar que o pensamento e a transformação eram a raiz da doença mental. No entanto, para muitos foi mais do que chocante, por diversas vezes até profundamente confuso quando Krishnamurti apontou que o próprio ser era a raiz mais profunda do medo. Poucos entenderam, mas todos se questionaram. Krishnamurti perguntou como seria possível prevenir completamente a doença.

A partir daí, o grupo passou a debater uma diferença central: psicoterapeutas e, claro, o mundo inteiro estão acostumados a pensar em termos de processo. Isso implica que a mudança leva tempo, que leva tempo para que qualquer transformação ocorra. Um homem, por exemplo, disse que a visão de Krishnamurti sobre a transformação da consciência parecia implicar um processo. Os pacientes, argumentou-se, melhoram “com o tempo” como resultado da participação em um diálogo que chamamos de terapia. Pode-se observar que estes pacientes, como resultado de uma mudança em seu conhecimento sobre si mesmos e sobre o mundo, têm menos medo. Os terapeutas questionaram como seria possível descartar a ideia do processo diante da recorrente melhora ao longo do tempo? Krishnamurti se perguntou se tais pessoas realmente não adquiriam outra dependência para aliviar seus medos. Ele perguntou, “É possível ser totalmente livre do medo e não simplesmente ter menos medo (como sugerido ser o resultado usual da psicoterapia)?”

Esse tipo de pergunta surgiu de outra forma na discussão sobre desenvolvimento, um conceito que atrai o interesse da maioria dos terapeutas. A ideia de que a criança se desenvolve com o tempo é central para as teorias psicanalíticas, assim como a de que doenças mentais surgem da realização imperfeita de várias tarefas de desenvolvimento ao longo de um processo. De forma semelhante, o terapeuta observa um processo no paciente, que gradualmente resolve seus vários medos. À medida que a terapia avança, há mudanças, e diferentes medos vêm à tona. O paciente gradualmente se torna capaz de prolongar sua vida e viver mais “produtiva” e “livremente”. Krishnamurti concordou que um organismo como tal passou por um desenvolvimento. Mas o organismo é diferente do “eu”. Esse “eu” é um produto do pensamento como prevenção da ação imediata. O eu ou ego, no qual os terapeutas focam, é uma característica do processo de transformação e é a própria doença com sua necessidade incessante de ser.

Isso também levantou questões sobre o tipo de mudança observada nos pacientes que o terapeuta considera terem melhorado. Embora eles possam se adaptar “melhor” a este mundo corrupto, isso significa que eles são capazes de amar ou que estão livres do medo? Krishnamurti perguntou se há uma ação que não seja do eu ou do tempo. Isso tem algo a ver com conhecimento e aprendizado? E o amor está de alguma forma relacionado ao conhecimento?

A questão do processo surgiu de outra maneira quando um terapeuta observou, “Vemos muitos pacientes que se sentem como se não fossem nada. Ou seja, como você sugere, eles estão se sentindo vazios do eu e da substância da consciência.” Krishnamurti observou que o problema com tais pessoas é que elas realmente sentem que querem ser algo. Outro médico considerou isso mais problemático do que Krishnamurti havia sugerido. Ele insistiu que esse estado de se sentir como um nada era porque esses pacientes estavam com medo. Não era resultado da superação do medo. Era um estado anterior ao sentir, experimentar ou entrar em contato com a vida. Este médico e outros sentiram que era necessário que o paciente passasse por um processo de experimentar um eu, um ego antes que pudesse abrir mão do eu.

Krishnamurti continuou ressaltando que nenhum processo é necessário para se estar ciente da natureza do pensamento e da transformação, ou da formação de ideais, e que o intervalo entre o que é e as invenções do pensamento deve ser instantaneamente finalizado. Ele desafiou outra suposição psicanalítica básica, afirmando ser desnecessário divulgar as camadas profundas do inconsciente ao longo do tempo. Os terapeutas achavam que um processo de tal revelação era necessário, mas Krishnamurti disse que a atenção completa ao momento da ação é uma ação abrangente e suficiente. Ficou claro que os terapeutas sentiam que os pacientes não eram capazes de viver o momento, e que eles precisavam de preparação a fim de, gradualmente, perceber os limites do pensamento, incluindo a ajuda para passar por um processo de acentuar o ego.

Ao longo do diálogo, o tema recorrente foi como encontrar uma ação que exista além do tempo e do pensamento. Era perturbador para muitos ouvir que era impossível agir conscientemente sem se fragmentar, e que a verdade não tinha nada a ver com a realidade, que é o produto do pensamento. Implícita na discussão e frequentemente emergindo em explosões explícitas estava a pergunta: como os psicoterapeutas podem ajudar seus pacientes se eles próprios não são completos? Claro que todo mundo na sala estava ciente de sua própria fragmentação, e isso levava ao confrontamento de todos com questões sobre o tipo de ajuda eles estavam fornecendo.

Para explorar isso, Krishnamurti enfatizou que não existe segurança psicológica. A ação de pensar e se transformar é a ação de insegurança. A única segurança é a plena compreensão de que não há segurança psicológica. Ao compreender isso, pensamento e transformação chegam ao fim. Essa discussão desafiou o processo analítico do qual a maioria dos participantes participava diariamente. Krishnamurti observou que a análise como pensamento era uma paralisia da ação. Vai de uma parte para a próxima, infinitamente incompleta. Agir de uma conclusão a outra produz fragmentação infinita e é em si mesmo um processo de fragmentação. É tudo uma ação do pensamento. A liberdade nunca poderá ser alcançada assim.

A maioria dos psicoterapeutas que participaram da conferência de dois dias ficou profundamente comovida com o debate. Em geral, eles tiveram grande dificuldade em compreender que nenhum processo era necessário. Isso desafiou os pressupostos psicanalíticos de crescimento e desenvolvimento. Ser nada e viver diretamente o momento intrigou e interessou a muitos que apreciavam que a interminável análise através do pensamento não estava ajudando seus pacientes. Muitos relataram que ficaram agitados, e então questionaram, alguns disseram que se sentiram mais tranquilos após o trabalho com Krishnamurti. Um homem disse, “Foi como um sopro de ar fresco”. Mas é claro que é necessário mais diálogo para compreender o processo do pensamento.

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