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Dorothy Simmons

DIRETORA FUNDADORA, CENTRO EDUCACIONAL BROCKWOOD PARK, BRAMDEAN, REGIÃO DE ALRESFORD, INGLATERRA

 

DS: Considero um imenso privilégio ter trabalhado com Krishnaji e ter vivido na mesma época que ele. Isso me revelou tudo. Ele era um artista na vida, e essa era sua beleza. Ele doava generosamente. Era a generosidade e alegria de sua vida, e ele parecia feliz com a vida, mesmo sabendo de todo o sofrimento e dificuldades existentes. O que ele queria fazer, eu sinto, era revelar como você, você mesmo, poderia acabar com essas misérias ao compreender a si mesmo. É isso que sinto que ele realmente queria compartilhar conosco.

Krishnaji se educou. Ele não fez isso através de uma referência ao que havia acontecido antes, através da história. Ele deu uma olhada na história e disse que somos o resultado disso. Ele a abordou de uma maneira diferente, de maneira nada acadêmica. Ele a abordou através de seus sentidos, não acumulando conhecimento e referências ao que havia acontecido no passado, mas da madeira que poderia ser encontrada neste dia que nunca havia acontecido. Essa é uma diferença muito fundamental. Não foi através do conhecimento, mas sim da percepção e sensibilidade a tudo o que não era ele mesmo.

Evelyn Blau: O que você quer dizer com “percepção e sensibilidade a tudo o que não era ele mesmo?”

DS: Você tem sua vida. Você é único, de certa forma, mas você também é idêntico, é parecido com todo mundo. No entanto, lá fora existe um mundo inteiro nascendo, que é novo, que é um milagre e que está falando de sua própria vida e energia. Krishnaji aprendeu isso. Tudo o que não é você, está lá fora. O que não é você é o que compreende a vida.

Realmente, a vida é energia, e Krishnaji prestava muita atenção em sua própria energia: ele a nutria, cuidava, detalhava o que comia, tudo importava. E então, tendo feito isso, havendo tornado seu corpo o mais sensível possível, seguiu em frente para ver o que mais havia no mundo. Ele se relacionou com o mundo, e assim absorveu através da comunicação o que era a energia na vida. É tudo interconectado e nutrido por essa abordagem de se preocupar consigo mesmo, mas também com tudo, recebendo a comunicação que a vida faz o tempo todo.

O afeto é o começo de como você aborda qualquer coisa. Você não pode ver nada ou perceber algo sem ter afeto, mas acho que é preciso ir mais fundo. É preciso gerar uma energia, realmente equivalente à paixão, se você for compartilhar com as pessoas, seja o que for que você tenha percebido. É a paixão com a qual Krishnaji recebeu e deu vida que forneceu a qualidade que ele concedeu ao mundo. Foi grande afeto, amor, o que eu penso ser a qualidade vital de toda sua abordagem. É a coisa mais maravilhosa. Não é possível fazer nada sem ele, não se pode fazer nada.

EB: Que relação a presença de Krishnamurti tinha com o ensinamento?

DS: Bem, ele era os ensinamentos, embora eu hesite em usar a palavra “ensinamentos”. Isso a torna finita, e acho que era uma busca contínua, uma aventura e, nisso, ele personificou… ele era os próprios ensinamentos. Ele vivia isso, através do cuidado e da atenção que dava a tudo e da profundidade de sua paixão, afeto e amor pela humanidade. Sim, acho que isso teve um impacto. Você se sentia elevado pela presença dele. Ele carregava consigo uma qualidade que era rara e forte, e as pessoas se uniam, tentando receber a seriedade e paixão que ele trazia e dava à vida.

Krishnaji era para nós o mesmo que Newton era para Einstein. Ele abriu novos caminhos. Ele viu que nosso comportamento era infantil, que estávamos nos destruindo porque não conseguíamos ver, não tínhamos controle sobre nossas emoções. Éramos crianças com ferramentas fantásticas para destruir, ferir e danificar, e ele disse, “Vou lhes dar as ferramentas para ajudá-los a crescer e ser responsáveis por suas ações e modo de vida”, e foi exatamente o que ele fez. Ele disse, “Sua ganância, seus medos, egoísmo, raiva e agressividade, tudo isso está os impedindo de receber todo esse mundo incrível. Então façam uma viagem para dentro de si, descubram a si mesmos e cresçam. Parem de ser criança.” O que somos de fato.

Ele viu que o mundo não havia mudado por um longo tempo, que ainda era adolescente. Ele elevou nossa consciência e viu que nosso comportamento era o que bloqueava qualquer aprofundamento, qualquer responsabilidade pela situação do mundo.

EB: Quais eram as intenções de Krishnamurti com Brockwood e todas as outras escolas?

DS: Na verdade, se você observar, tudo o que você pode fazer em uma escola e o que Krishnaji estava provavelmente fazendo era mostrar que existe uma forma diferente de viver. É realmente tudo o que se pode transmitir, é tudo comportamento, e essa é a essência do que Krishnaji estava revelando. Eu não acho que é possível ensinar isso. Apenas torna-se conhecido através do jeito como se vive, como ele viveu. Há algumas coisas que podemos fazer e outras que não podemos fazer e que devem ser transmitidas aos jovens. É preciso ser educado para saber como se comportar na vida, em relação a tudo e a todos.

EB: O que impede as pessoas de encontrarem o comportamento e a compreensão correta em acordo com os ensinamentos de Krishnamurti?

DS: Por que não vivemos os ensinamentos? Porque nossa atenção é muito superficial. Não damos total atenção a isso. Nós pensamos sobre isso, mas não é o suficiente. Nós intelectualizamos, tomamos distância. Mas não sentimos isso de maneira apaixonada. Se o fizéssemos, todas essas coisas tolas que nos seguram simplesmente desapareceriam. A questão é que sentimos que faremos isso mais tarde, porque gostamos das coisas que gostamos, que são fáceis e familiares.

EB: Como o aprendizado acontece em Brockwood? Krishnamurti contou como não se ensina um bebê a andar, a conversar etc.

DS: Há uma historinha adorável que me contaram no início de Brockwood que muito me impressionou. Havia uma garotinha tentando colocar linha em uma agulha, o que ela não conseguia fazer. Sua mãe apareceu, apenas pegou a agulha e disse, “Aí está, minha querida.” A criança disse, “Mamãe, eu não queria a linha na agulha. Queria colocar a linha na agulha.” E senti que era assim que o ensino devia começar. Não é possível ensinar nada. Tudo o que se pode fazer é remover as barreiras e possibilitar que uma criança aprenda sozinha.

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