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Mark Lee

DIRETOR EXECUTIVO, FUNDAÇÃO KRISHNAMURTI DA AMÉRICA, OJAI

 

“O propósito de educar crianças é deixar que a bondade aflore nelas e ajudá-las a ver que o conhecimento é apenas uma pequena parte de um vasto campo.” Com a ajuda de amigos e educadores, Krishnamurti criou meia dúzia de escolas com esse objetivo em mente. Ao contrário dos internatos estabelecidos na Inglaterra e na Índia, a escola fundada por ele em Ojai, Califórnia, foi concebida como uma escola integral onde os pais poderiam participar ativamente na educação de seus filhos, de modo que não houvesse divisão entre escola e casa. Havendo chegado nos Estados Unidos nos anos 1920, Krishnamurti conhecia bem os estadunidenses. Ele se interessava pela grande energia e generosidade deles, e sentia que eles eram afortunados por sua falta de tradição forte, mas via que a cultura deles estava em intenso declínio.

Em dezembro de 1974, a convite de Krishnamurti, vim a Ojai para participar da abertura da Oak Grove School com minha esposa, Asha, e com nossa filha de um ano de idade, Nandini. A Fundação Krishnamurti da América havia pouco antes obtido a posse de um rancho com uma casa desarmônica, de paredes brancas feitas de ripa, uma casa na Califórnia conhecida como Arya Vihara – local em que Krishnamurti passou a maior parte de seu tempo nos Estados Unidos de 1920 até sua morte em 1986. Eu e Asha imediatamente planejamos a restauração da propriedade para que ela pudesse ao menos servir temporariamente como a própria escola. Desde o início não havia distinção entre nossa vida familiar e o trabalho da escola, que era realizado sete dias por semana, vinte e quatro horas por dia.

Em setembro de 1915 nós já tínhamos uma escola modesta, com três educadores e três alunos. Ela cresceu notavelmente ao longo dos três anos seguintes, chegando a quinze alunos e cinco educadores. Dentro de dois anos nós estávamos supervisionando a construção de uma escola maravilhosa, com salas de aula dotadas de telhas e claraboias, adjacentes ao bosque de carvalhos onde Krishnamurti palestrava todos os anos.

Krishnamurti amava estar em Ojai. A beleza do vale o rejuvenescia conforme ele caminhava por seus caminhos e trilhas com suas longas passadas todo fim de dia, seus grandes olhos atentos a tudo e a todos. Chegando todo mês de janeiro, após uma extenuante agenda de palestras e reuniões na Índia, Inglaterra e Suíça, ele se deleitava com a paz, o sossego e a privacidade oferecida por Ojai. No entanto, o fogo para criar uma nova mente e uma nova geração fundamentada em um espírito verdadeiramente religioso esteve sempre aceso dentro de Krishnamurti. Foi uma paixão que nunca diminuiu.

Quase que imediatamente, ao retornar a Ojai todo ano, ele mergulhava nos trabalhos da escola, participando de diálogo e reuniões com os educadores, administradores e pais. Os educadores buscavam os conselhos de Krishnamurti acerca de currículo e questões de ensino, mas sua resposta — que “a vida acadêmica e a vida espiritual são uma” — fazia com que nosso relacionamento com ele se mantivesse nos termos mais elevados e universais. Era óbvio que sua mais profunda preocupação era que os educadores tivessem clareza dentro de si mesmos, de modo que as questões referentes ao trabalho em sala de aula pudessem ser respondidas de maneira inteligente pelos que trabalhassem no ensino. Krishnamurti enxergava seu próprio trabalho como nos levar a descoberta da base religiosa da escola.

Repetidamente ele nos perguntava: “Qual é o propósito da educação?” “Os professores possuem um sentimento de energia ilimitada?” Nossa única preocupação deveria ser com o ato de aprender — seja ao criar um ambiente para o aprendizado, ou ao aprender dentro de nós mesmos.

Krishnamurti queria uma escola “atemporal”, que durasse centenas de anos. Ele chegou ao ponto de sugerir que mesmo os prédios das escolas não refletissem os estilos arquitetônicos atuais. O surpreendente era como ele examinava impiedosamente as estruturas educacionais mantidas pelas mentes mais progressivas dentre os educadores. Nós não deveríamos ser “experimentalistas” e nem vanguardistas.

Em meio aos anos 1970, estudos ambientais estavam em voga e todos falavam sobre retornar para a natureza e para uma vida mais simples. Krishnamurti me disse, “Levar uma criança para passear e apontar a natureza para ela pode ser uma abordagem completamente errada. São apenas palavras. Ao invés disso, estimule o cérebro ensinando a arte de escutar e observar. A consciência sensorial se perde durante a aquisição de conhecimento. O conhecimento deveria vir da consciência sensorial.” Suas admoestações para “evitar que a criança desenvolva a habilidade de concentração,” e que “todo conhecimento é um impedimento,” desafiavam os pais e os educadores até a raiz de seus pensamentos.

A todo momento, estudávamos a cultura popular e os elementos da teoria educacional dominante. Sentindo a mentalidade dos jovens estadunidenses que havíamos reunido para ensinar na escola, Krishnamurti frequentemente nos avisava dos perigos da “cooperação”, “união” e, o mais perigoso de todos, de uma “comunidade” construída ao redor de um grupo na busca por um ideal. Ele nos ajudou a ver que essas abordagens são todas divisionistas, e que apenas uma mente religiosa poderia destruir a direção errada tomada pela humanidade há muitos anos. Questionando ano após ano às mesmas pessoas, suas perguntas eram como rochas afundando continuamente na água de um poço, ressoando dentro de nós, o tempo todo. É difícil expressar o efeito desses intensos questionamentos na natureza da educação e no nosso comprometimento com a escola, mas posso dizer que o tempo parava. Os anos se passaram, incontáveis.

O questionamento passional estava mudando nosso pequeno grupo de intrépidos de maneira profunda e irreversível. Lentamente, percebemos que o propósito da escola era desenvolver a arte de escutar e aprender. Foi somente então que o persistente enigma de Krishnamurti, destruindo o conhecimento e ao mesmo tempo dizendo que uma escola deve ser do mais elevado nível, foi desvendado. “O cérebro silencioso é o cérebro mais ativo,” Krishnamurti nos disse. “Se o seu cérebro grava, você não escutou.” Afirmações tão radicais e profundas quanto essa são descartadas como obscuras ou provocam um salto quântico — uma percepção atemporal — na própria natureza do aprendizado.

Conforme trabalhávamos dia após dia para estabelecer a escola e sua credibilidade, Krishnamurti ajudava a nos tornar sensíveis ao risco de desenvolver um catecismo educacional baseado em seus ensinamentos.  Ele nos confrontava sempre que nos refugiávamos em pontos afixados. Era óbvio seu afeto por nós, e ele nunca desistiu de ninguém. Ele não se envolvia com nossas vidas particulares, mas sabíamos que ele se preocupava profundamente com a nossa compreensão de nós mesmos e se estávamos aprendendo — ou “florescendo”, como ele dizia. Se ele sentisse que alguém tinha grande energia, que sentia fluir quando alguém não era egoísta, ou quando era “um vaso vazio”, então ele trabalhava com aquela pessoa — a “cozinhava”, em suas palavras — em discussões, durante refeições, e ao longo de caminhadas.

A investigação era tão extraordinária que ascendia os que estavam abertos a aprender, mas foram vários os casos de atrito nos primeiros dez anos. Nós observamos por que os professores se desgastam e perdem o foco, e descobrimos que se os funcionários ou os educadores viessem apenas pelo emprego ou pela associação com Krishnamurti, eles geralmente se esgotariam ou iriam embora desapontados. A morbidade psicológica era elevada porque os desafios eram muito grandes. Havia entre nós um espirito de aventura angustiante e trabalhamos muito para tornar a escola digna da associação de Krishnamurti com ela, mas a cada esquina enfrentávamos nossas limitações, criadas por nós mesmos. Os interstícios de personalidades, treinamento profissional e as motivações invisíveis não podiam ser ocultados ao longo dos quatro meses que Krishnamurti passava em Ojai a cada ano.

Em retrospectiva, agora vejo que éramos pioneiros sem direção, carregávamos a fronteira conosco. O currículo foi desenvolvido ao longo de centenas de horas em reuniões, respeitando cuidadosamente os requisitos educacionais do estado da Califórnia e ao mesmo tempo aprimorando tudo com a intensão criativa da escola. A Oak Grove School estabeleceu uma reputação sólida de excelência no meio acadêmico. Ela amadureceu com os funcionários e os educadores à medida que se aprofundavam no autoconhecimento e no profissionalismo.

A Oak Grove School é um lugar de aprendizagem no sentido mais amplo da palavra.

Tenho confiança de que ela terá uma longa vida e não se tornará uma instituição. Não há história ou tradição para trazer problemas.

Ao longo da minha participação na escola como pai, professor e diretor, senti-me abençoado e encontrei uma enorme energia que vinha naturalmente com essa vida incomum e intensa. Uma vez Krishnamurti me disse que se uma pessoa vivesse os ensinamentos, essa pessoa seria “protegida”. Perguntei o que ele quis dizer, e ele respondeu, “Senhor, descubra você mesmo”. Estou descobrindo desde então. Cheguei à conclusão que a energia traz percepção, a percepção traz consciência, e talvez essa consciência seja o que nos protege. Há mais além disso, mas enquanto descobrimos, a mente se transforma fundamentalmente.

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