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Michael Krohnen

CHEFE DE COZINHA, KREFELD, ALEMANHA

 

Foi após anos de contato diário com Krishnamurti que eu vim a descobrir totalmente e a apreciar os aspectos cativantes de sua personalidade. Ele estendia cuidado e carinho genuínos àqueles ao seu redor. Sua amizade, para mim e para muitos outros, era honesta e sem pretensões e transmitia uma maravilhosa sensação de liberdade e alegria.

O que eu mais amava nele era sua risada e seu senso de humor, o que abrangia todo o espectro da vida humana. Na mesa de almoço em Ojai, onde eu o encontrava com mais frequência, ele constantemente exibia seu riso contagioso. Mesmo durante suas falas públicas diante de milhares de pessoas e durante os diálogos mais investigativos com cientistas e acadêmicos ele conseguia introduzir um humor alegre, irradiando sobre as ironias e os absurdos da vida.

Mas ele não parou aí. Ele também estava mais que disposto a rir de si mesmo e das situações absurdas nas quais ele se encontrava as vezes. Em público e no privado, ele se referia a si mesmo como “o pobre coitado no palco”, ou “o velho”, e gostava de contar histórias divertidas de sua vida incomum. Todas elas eram anedotas encantadoras de seu dia a dia que zombavam gentilmente não apenas dos outros, mas também dele mesmo. Uma vez, no almoço na época das palestras públicas em Ojai, estávamos discutindo a estima e adoração excessiva às quais ele frequentemente se via sujeito. De repente, Krishnamurti caiu em uma gargalhada alegre e libertadora, exclamando, “Tudo isso é tão louco, tudo isso é absolutamente absurdo.”

Eu estava sentada ao lado dele e prontamente me juntei a sua risada desinibida, embora não estivesse totalmente claro para a mim o que ele quis dizer exatamente por ‘isso’. Depois que nossa euforia passou um pouco, eu o perguntei, “Senhor, o que você quer dizer com ‘Tudo isso’? Você quer dizer as conversas e tudo isso?” E fiz um gesto amplo em direção aos outros convidados à mesa, incluindo toda a situação.

Suas lágrimas de tanto rir ainda estavam em seus olhos quando se virou para mim. “Sim, senhor. Tudo, e todo o circo sobre ele,” ele respondeu com um sorriso travesso, apontando para si mesmo. Todos à mesa, aproximadamente seis pessoas, compartilharam mais uma rodada de riso exuberante, na qual se misturava a pura alegria de viver.

Nas palestras em San Diego, em 1970, ele respondeu a perguntas sobre sua definição de humor dizendo, “Suponho que seja realmente rir de si mesmo. Temos tantas lágrimas em nossos corações, tanta miséria… apenas olhar para nós mesmos rindo, observar com clareza, com seriedade e ainda assim rindo, se possível.

Apenas meses antes de sua morte, em 1986, ele frisou, “Rir é parte da seriedade, não é? Se você não sabe rir e olhar para o sol, as árvores, a luz falha e tudo mais, bem, você já está meio morto, você não é exatamente um ser humano. Se você não é sério religiosamente — apenas aos domingos — então não é sério. Eu quero dizer risada, um sorriso, aquele senso de humor e apreciar boas piadas, não piadas vulgares, mas piadas realmente boas.”

Percebi seu refinado senso de humor como o aspecto alegre da extraordinária inteligência que ele manifestava. Isso impregnava sua pessoa e palestras com um lado humano caloroso sem o qual as pessoas poderiam facilmente se sentir intimidadas pela elevada ou mesmo majestosa qualidade do que ele dizia e pela sua apresentação as vezes austera. Após fornecer uma percepção bastante incisiva sobre a situação humana existente em uma escala global, com seu medo e sofrimento assustadores, ele inesperadamente contava uma história curta impressionante ou uma de suas piadas. Era um toque de cura através do qual, de uma vez, tudo se acertava novamente, curava-se através do poder libertador de um riso compartilhado — como se de repente todos nós nos tornássemos cientes de uma grande piada cósmica.

As piadas que ele recontava primorosamente com tamanho prazer eram predominantemente de natureza religiosa ou política, isto é, tratavam de temas como paraíso e inferno, Deus e o diabo, o Papa, São Pedro e Jesus, iogues e gurus, e políticos. Krishnamurti provavelmente teria se oposto a uma análise de suas piadas, ou qualquer tentativa de conferir um significado maior a elas. É claro, eram “apenas” piadas, nada além disso — mas uma piada, sua apresentação e apreciação também manifestam um estado mental. As piadas de Krishnamurti, eu acho, revelavam a natureza do pensamento humano, suas superstições absurdas e incongruentes, sua propensão a criar sistemas de crença, dogmas e autoridades espirituais, e suas formas desonestas de estabelecer e defender um centro com seu “interesse pessoal”. Elas lidavam divertida e supersticiosamente com os absurdos e ironias de nossa era, velhas tradições e de nosso cotidiano.

Penso que foi mais do que uma coincidência que um dos discursos mais celebrados de Krishnamurti, que dissolveu formalmente a organização mundial criada para ele como professor mundial, tenha começado com uma piada, uma circunstância negligenciada por seus biógrafos. O discurso dado por Krishnamurti em Ommen Camp, nos Países Baixos em agosto de 1929, extinguiu a “Ordem da Estrela” e é mais conhecido por sua frase comovente, “A verdade é uma terra sem caminho.” Na verdade, Krishnamurti repetiu a piada contada na ocasião muitas vezes ao longo de sua vida, modificando-a levemente à medida que avançava.

Uma das últimas vezes que ele a contou em público, revelou que ele próprio havia pensado e inventado aproximadamente quarenta ou cinquenta anos atrás. Foi provavelmente a única piada criada por ele mesmo. Todas as outras ele havia ou ouvido de alguém ou lido. Surpreendentemente, alguns dos principais temas de sua vida e ensinamento estão inseridos nessa curta piada:  a busca do homem pelas organizações sagradas, verdadeiras e religiosas.

Segue ela em sua versão original de 1929: vocês podem se lembrar da história de como o diabo e um de seus amigos estavam descendo a rua quando viram a frente um homem se abaixar e pegar algo do chão, observar e guardar o objeto em seu bolso. O amigo disse ao diabo, “O que ele pegou?” “Ele pegou um pedaço de verdade,” disse o diabo. “Um péssimo negócio para você, então,” disse o amigo. “Ah, de modo algum,” o diabo respondeu, “Vou deixá-lo organizá-la.”

Seu senso de humor inimitável e afetuoso, sua risada alegre reforçava a humanidade de Krishnamurti e completava sua plenitude. Ao mesmo tempo, ele tinha o cuidado de notar o outro lado desregrado do riso que vem com muita facilidade. Durante a última palestra dada em Oak Grove, em Ojai, ele advertiu a multidão a frente dele, “Por favor, não riam, isso é muito sério. Não que nós não devamos ter humor. É bom rir, mas rir pode ser uma forma de evitar os fatos. Assim, é preciso estar ciente disso. Não que nós não devamos ter humor: ria de uma boa piada com todo o seu ser.”

Humor, alegria, bondade e inteligência se fundiram nele em plenitude, a flor plena da humanidade. Ele era um grande ser humano, e seus ensinamentos são o perfume que permanece em nós.

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