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Pama Patwardhan

EDITOR E SECRETÁRIO DA FUNDAÇÃO KRISHNAMURTI DA ÍNDIA

 

EB: Perguntaram a Krishnamurti se uma pessoa comum poderia entendê-lo. O que ele respondeu?

PP: Pela forma que ele revelava seus ensinamentos, acho que pretendia que qualquer pessoa, sem qualquer aprendizado ou conhecimento especial, fosse capaz de absorver e trabalhar seus ensinamentos. Ele sentia que aqueles especializados em filosofia ou em qualquer área específica haviam se tornado acadêmicos, e para eles seria difícil compreender e absorver seus ensinamentos. Negar seu conhecimento e escutar de verdade a Krishnamurti era algo difícil para uma pessoa estudada. Devido a seu aprendizado, ela compararia, contrastaria, avaliaria. Ela realmente não escutava. Penso que uma pessoa comum seria capaz de compreender o que Krishnaji dizia melhor do que uma pessoa estudada.

EB: O que Krishnamurti pensava quanto a ação social?

PP: Na Índia, as pessoas têm tido dificuldade em entender sua posição quanto a ação social. Há tanta desigualdade, tanta miséria, tanto sofrimento, tanta privação que qualquer pessoa sensível, qualquer pessoa com uma visão global consideraria que o caminho da ação social é o certo.  Essa questão surgiu especialmente durante o Movimento Bhoodan, “de volta à terra”, de Vinoba Bhave. Ele havia iniciado sua excursão a pé na Índia por doação de terra, declarando que “a terra, assim como a água, não poderia ser propriedade de ninguém”, que pessoas com excesso de terra deveriam doar terras. Ele estava atraindo muitos seguidores. Krishnaji sentia fortemente que esse tipo de ação social era fútil, que não produziria as mudanças básicas que os ativistas sociais tinham em mente. Seria sempre uma terra de mudança estética, periférica. Aqueles que recorrem à ação social, ele também sentia, eram diferentes à medida que tinham grande potencial, grande sensibilidade pelo homem comum devido a seu sofrimento. Ao invés de recorrer à ação, se eles recorressem à uma mudança fundamental na psique humana, seriam capazes de chegar realmente à raiz do problema. Descobrimos que o que ele dizia era verdade.

Eu e minha família estávamos profundamente envolvidos com ações políticas pelo movimento livre e pela ação social em prol da redistribuição das terras. Não conseguíamos entender o porquê de Krishnaji ser tão contrário a tudo aquilo e, entre nós, costumávamos dizer, “Bem, há algo que Krishnaji está falando sobre o qual não entendemos”. Porém, após vinte e cinco anos, todos aqueles movimentos falharam, nada resultou deles. Vimos com nossos próprios olhos a verdade da qual ele falava. Estávamos distantes de nosso objetivo. O movimento não produziu qualquer resultado esperado. Teria sido muito melhor se tivéssemos nos voltado para o problema básico da miséria humana, que é se voltar para o interior, que é ir à raiz do problema em si mesmo ao invés de tentar mudar a sociedade. Porém, quando há pobreza a nosso redor, não podemos simplesmente dizer que estamos trabalhando em nós mesmos e fazer nada.

Entretanto, Kishnamurti sempre dizia que devemos manter nosso quarto limpo, que temos um certo dever. Devemos a nós mesmos e à sociedade fazer o que quer que seja possível para corrigir a desigualdade, a miséria das pessoas a nosso redor. Mas não podemos fazer disso o foco de nossas ações e vidas, sabendo que o foco está em nosso interior. A não ser que o centro esteja em silêncio, a não ser que entendamos as várias causas da miséria, agir meramente no exterior é em vão.

EB: Qual foi o impacto dos ensinamentos de Krishnamurti em sua vida?

PP: O impacto tem sido tão tremendo, tão profundo. Embora eu escutasse Krishnaji desde 1948, passei a ter muito mais contato com ele quando me tornei secretário da Fundação em 1976. Acho que depois disso o impacto foi tão grande que não sou mais a mesma pessoa.

Eu costumava ser competitivo no trabalho. Eu não estava ciente de muitos problemas da vida em geral ou de minha própria vida. Fechei-me ao me tornar insensível, o que eu não sabia na época. Agora, quando olho pra trás, vejo como havia me fechado, tornando-me egocêntrico. Mas quando me aproximei de Krishaji, ele apontava coisas, e eu me orientava completamente para compreender os ensinamentos. Agora vejo que não sou o mesmo homem. Não estou afirmando que me transformei ou algo assim, mas acho que sou muito mais sensível.

Estou distante de muita confusão, do conflito, da miséria com os quais os homens geralmente se envolvem. Acho que os ensinamentos me afetaram profundamente. Têm sido algo enorme para mim. Acho que se uma pessoa puder dar atenção ao que Krishnaji fala, toda a qualidade de sua vida será diferente, será um ser humano melhor.

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