Inicial

Sunanda Patwardhan

PHD, SOCIÓLOGA, POONA, ÍNDIA

 

SP: Krishnaji é um dos maiores professores da humanidade. Não é que outros professores não tenham falado sobre o fim do sofrimento, o fim do processo do ego e sobre a natureza da transcendência. No entanto, para mim, e com certeza para as milhares de pessoas que o escutaram, os ensinamentos de Krishnaji apresentam certas características únicas.

Antes de tudo, ele aponta o fato que o destino da humanidade é um só. Não é apenas uma questão de salvação pessoal, que meditamos e então acabamos com a fonte do conflito em nós mesmos. Pelo contrário, na medida em que mudamos a nós mesmos, transformamos o mundo e, assim, é nossa responsabilidade mudar a nós mesmos. Portanto, sua declaração principal ou sutra, que “você é o mundo e o mundo é você”, eu acho, é muito importante. Cada um de nós é responsável por mudar esse mundo de ódio, de conflito, de antagonismo, de divisão como diferentes grupos de pessoas, como hindus, muçulmanos, indianos. Acho que essa é a singularidade de seu ensinamento.

EB: Você poderia falar sobre a dimensão física dos ensinamentos de Krishnamurti?

SP: Krishnaji mostra a importância do papel dos sentidos em provocar uma quietude da mente e despertar uma nova sensibilidade. Não é através da supressão dos sentidos, não é através da negação ou sublimação dos sentidos, mas sim através do despertar de nossos olhos, ouvidos, toque, olfato, tudo. Geralmente, usamos ou conhecemos apenas um ou dois sentidos de cada vez, enquanto ele fala de todos os sentidos operando simultaneamente. Então pode haver um fundamento de um estado não-verbal profundo. Este despertar dos sentidos apresenta vibração e vitalidade sem um centro.

EB: Você disse anteriormente que um professor como Krishnamurti apenas aparece uma vez a cada mil anos. Poderia explicar o que quer dizer com isso?

SP: Veja, Buda pertencia às grandes tradições separatistas da Índia. Isso ocorreu há mais de 2500 anos. Ele repudiava tudo que era tradicional, ritual, ritos, ortodoxia etc. Assim como Buda, Krishnaji fugiu da corrente de tradição indiana. Ele foi criado, tendo sido negada a ele sua língua materna, aprendendo a língua inglesa e a francesa. De certo modo, ele foi educado para falar com toda humanidade na língua inglesa, que é compreendida em muitos países. Acho que isso é algo muito significante, de modo que, o que quer que ele diga, pode ser entendido diretamente por muitas pessoas em muitos lugares do mundo.

EB: Há centenas de gurus, e Krishnamurti, de certa forma, trabalhou como um guru. De que modo ele era diferente?

SP: Acho que Krishnaji era bem diferente e único uma vez que era muito enfático ao dizer que não existe autoridade espiritual, que não há autoridade alguma em questões espirituais. Muitas pessoas podem ter o visto como um guru, ele era conhecido como o guru que era um não-guru. Ele pediu que cada um fosse responsável por si mesmo nessa jornada de investigação. Não há autoridade no mundo espiritual. De tal modo, ele nunca deu respostas. Ele disse, “Veja o problema. O problema se revelará, é preciso investigar, é preciso observar o que ele é e, nessa observação, ele se revelará e assim uma transformação poderá ocorrer. Para que isso aconteça, nenhum guru pode guiá-lo. Se você está sofrendo, se está em estado de agitação, nenhum guru poderá ajudá-lo. Você precisa observar, e isso despertará a capacidade de ser independente e investigar a liberdade desde o início.”

EB: A afeição tinha algum lugar nos ensinamentos de Krishnamurti?

SP: Eu diria que a emoção não tinha lugar em seus ensinamentos. O sentimento não tinha lugar em seus ensinamentos. A mera resposta do intelecto também é limitada e não tem base de afeição e sensibilidade nas relações entre os seres humanos. Poderá haver uma nova qualidade em nosso dia a dia somente quando nós, seres humanos, nos unirmos em afeição. Ele certamente dava tremenda importância à afeição e ao amor.

Quando tivermos isso, os relacionamentos não representarão nenhum problema.

Lembro-me de uma conversa com ele. Um amigo me disse, “Você sabe, nos ensinamentos de Krishnamurti há lugar apenas para compaixão. Não há lugar para afeição humana comum, prazer ou carinho. Como se vive então?” Posteriormente, quando conheci Krishnamurti, conversei com ele sobre isso. Ele disse, “Compaixão é uma coisa muito vasta, pode ser muito abstrata. Muitas pessoas não conseguem entender ou compreender o que é compaixão. É muito difícil. Mas a compaixão pode tocar uma pessoa. Pode se relacionar com um indivíduo e quando isso acontecer você entenderá.”  A compaixão pode continuar sendo um conceito, mas pode-se sentir afeto onde não há preconceito, não há demanda por reciprocidade. Então é possível ter compreensão e empatia um pelo outro sem esforço.

EB: A presença do professor de algum modo impedia um entendimento do que ele estava falando?

SP: O que a presença de uma pessoa chamada de “realizada”, uma testemunha de tal inteligência e compaixão suprema causa? Temos descrições daqueles estados de “alteridade”, de transcendência em passagens, em livros. Mas quando alguém vive de verdade na presença de tal pessoa, vivencia uma qualidade diferente porque há uma comunicação silenciosa do que é sagrado, não apenas através de palavras, símbolos ou pensamentos. A presença viva de um indivíduo que é tanto testemunha quanto detentor dessa extraordinária dimensão sagrada e energia pura tem um significado que vai além de qualquer medida.

EB: De que maneira Krishnamurti mudou ao longo dos anos, e essa mudança se refletia nas palestras?

SP: Acho que Krishnamurti mudou bastante ao longo dos anos. O conheci em Madras quando ele veio à Índia em 1947. É claro que, pessoalmente, apaixonei-me completamente pelos ensinamentos, por ele, e isso resultou em muitas mudanças na direção de minha vida.
Era um prazer estar com ele. Ele andava conosco, conversava, era tão divertido estar com ele para além da seriedade do ensino em si. Eu diria que, talvez no final dos anos cinquenta, esse fator pessoal tenha começado a diminuir gradualmente. Pessoalmente, observei que ele se tornou mais severo, muito sério e, a partir de então, havia muito pouco de seu pessoal nele. Pude ver que ele se preocupava profundamente com o estado da humanidade. Durante cinquenta anos, ele ensinou, palestrou e viajou por todo o mundo. Por que uma única pessoa não havia sido transformada? Ele certamente estava preocupado com esse problema. Portanto, quase não havia lugar para o fator pessoal.

EB: Você acha que os ensinamentos de Krishnamurti podem servir como base para uma nova civilização?

SP: Sinto que sim, apesar de não ser capaz de comprovar. É apenas um pressentimento nessa direção. Hoje, Krishnaji aborda a humanidade, que já se tornou mais próxima como uma comunidade global. Ele aborda a humanidade como uma unidade. Portanto, está havendo uma comunicação com a consciência humana, ela está sendo tocada através de palavras e também sem palavras pela sua presença, e assim toda a corrente de consciência humana está sendo profundamente afetada. Esse despertar da consciência humana coletiva pode ser a base para a libertação de um novo processo criativo. Podem ser liberadas novas energias na percepção, nos relacionamentos. Os seres humanos podem se relacionar sem imagens. Um novo processo criativo é acionado, em diálogo consigo mesmo, em diálogo com a natureza, em diálogo com as pessoas.

EB: Existem aspectos dos ensinamentos de Krishnamurti que podem ser entendidos apenas não verbalmente?

SP: Todos sabemos que as palavras são muito limitadas e que os pensamentos também são limitados. Nossos relacionamentos são baseados em prazer mútuo, dor, dependência, insegurança. Observamos tudo isso, e a palavra não é a coisa. Não apenas porque isso foi dito por Krishnaji, mas porque também compreendemos isso. Uma das grandes coisas que ele disse foi que as imagens nos relacionamentos impedem que realmente nos relacionemos com o outro. Somente quando há sensibilidade, escuta, partilha sem querer nada em troca, que existe uma relação verdadeira. Um dos fundamentos da qualidade não-verbal é ser sensível e relacionar-se um com o outro em afeição. Se os seres humanos puderem amar um ao outro, ter afeto um pelo outro, talvez possamos encontrar uma saída de todo o caos extraordinário deste mundo.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

%d blogueiros gostam disto: