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T.K.V. Desikachar

MESTRE DE YOGA, MADRAS, ÍNDIA

 

Tomei conhecimento de Krishnaji em uma carta escrita para meu pai na Suíça por meu tio, B.K.S Iyengar (um renomado professor de yoga). Para meu tio, a participação de Krishnaji em sua demonstração de Asana em Saanen foi um grande evento. Meu pai me mostrou a carta, mas a informação pouco me impactou.

Eventualmente, no entanto, eventos me aproximaram muito de Krishnaji. Nos encontrávamos anualmente, viajávamos juntos, compartilhávamos pensamentos e conversávamos sobre amigos em comum e tudo apesar, ou como consequência, da relação aluno/professor muito tradicional que eu mantinha com meu pai, o grande mestre yoga e filósofo T. Krishnamacharya.

Compartilharei com você como isso aconteceu.

Em dezembro de 1965, Alain Naudé, secretário de J. Krishnamurti, ligou para meu pai em nosso pequeno apartamento em Gopalauram, Madras. Ele tinha uma mensagem de Krishnaji. Era um pedido para que meu pai visitasse sua residência e demonstrasse para Krishnaji como praticar asanas e pranayams (posturas de yoga e controle de respiração). Meu pai aceitou prontamente o convite. Na data determinada, Alain Naudé veio levá-lo para Vasanta Vihar. Meu pai pediu que eu e meu irmão Shribhashyam o acompanhássemos.

Quando chegamos, Krishnaji apareceu com mãos unidas e agradeceu meu pai profusamente pela visita. Minha primeira lembrança de Krishnaji é de uma pessoa gentil, idosa, com uma camisa longa e de costas retas. Ele tomou as mãos de Krishnamacharya e nos levou para seu quarto. Logo expressou seu desejo de ver como praticávamos yoga.

Seguindo as instruções de meu pai, eu e meu irmão começamos a demonstração das posturas de yoga. Após aproximadamente trinta minutos de observação, Krishnaji solicitou com entusiasmo ao meu pai, “Senhor, eu quero aprender asanas com o senhor, mas não se incomode. Poderia enviar um de seus filhos?” Eu traduzi o pedido para meu pai. Meu pai assegurou a Krishnamurti que ele providenciaria algo em breve.

A primeira visita, em dezembro de 1965, deu início a uma associação com Krishnaji que acabou apenas com seu recente falecimento.

No dia seguinte, quando Alain Naudé ligou novamente, meu pai requisitou que eu fosse até Krishnaji, insistindo que eu deveria mostrar o maior respeito.

Quando cheguei a sua residência, Vasanta Vihar, lá estava ele na varanda de braços abertos para me receber. Enquanto me encaminhava para seu quarto, perguntou carinhosamente sobre meu pai, como se se conhecessem há tempos. Antes de iniciarmos nossa primeira aula, expressei meu desejo de ver a prática de yoga de Krishnaji. Ele ficou pronto em pouco tempo. Apesar de seus sessenta e nove anos, as posturas demonstradas por ele foram de natureza extremamente avançada — todas variações de parada de cabeça, postura dos ombros, parada de mãos, e vários arcos de costas difíceis. E embora seu corpo fosse pequeno e as posturas fossem variadas e estonteantes, seu peito permanecia apertado como um barril. Eu também notei que sua respiração era restrita e ofegante, suas mãos tremiam, seu pescoço parecia granito, e seus olhos as vezes lacrimejavam. No entanto, seu entusiasmo nunca diminuiu.

Expliquei a Krishnaji que ele deveria praticar posturas e exercícios de respiração que poderiam reduzir esses problemas, e não exercícios que os aumentariam. Ele simplesmente aceitou meu conselho e me assegurou que estava lá como aluno para aprender o que quer que eu ensinasse. Ele também me forneceu mais informação sobre sua saúde. Era óbvio que ele precisava de atenção especial e era claro, também, que eu, o professor, precisava de orientação nessas questões. Fui embora confessando que pediria conselhos a meu pai. Krishnaji ficou satisfeito. Concordamos de nos encontrar no dia seguinte.

Discuti sobre a prática de yoga de Krishnaji e seus problemas de saúde com meu pai. Ele sentia que Krishnaji deveria fazer posturas muito simples e regimes de respiração. Ele me deu instruções claras, algumas das quais eram tão únicas para minha experiência que me pegaram de surpresa. Por exemplo, ele queria que eu ensinasse a Krishnaji uma posição com suas pernas levantadas contra a parede. Ao mesmo tempo, ele deveria continuar respirando profundamente. Sem paradas de cabeça. A rigidez no pescoço deveria ser corrigida com os movimentos de cabeça mais simples. Eu cumpri fielmente as instruções de meu pai. Krishnaji estava tão interessado em aprender que eu o via todos os dias, alguns dias mais de uma vez. Fiquei espantado com sua notável capacidade de se adaptar a essa nova instrução, uma vez que era tão contrária à instrução que ele havia recebido e praticado anteriormente. Em poucas semanas, não havia vestígios das práticas anteriores.

Sua prática era tão regular e pontual que me surpreendia. Ele me aguardava na varanda todos os dias, no mesmo lugar, para me receber. Seu local de prática era imaculado.  Tudo estava em seu lugar, bem ao lado de seu lápis e revista. Ele se apresentava sempre ansioso por entender o significado do que era ensinado a ele. Graças a suas perguntas pertinentes, fui forçado a aprender cada vez mais sobre yoga com meu professor. Ele frequentemente me perguntava, “O que é Yoga? O que é Yoga?” E a única resposta que pareceu satisfazê-lo foi quando eu defini yoga como Shanti. “Paz” é a palavra equivalente em inglês.

Sua atitude comigo era exatamente a de um aluno com seu professor. Ele não se sentava antes que eu o fizesse. Ele me encaminhava para seu cômodo. Ele nunca me permitia ajudá-lo a arrumar o tapete para a prática. Não era fácil, aos meus vinte e sete anos, deixar isso acontecer, especialmente quando o aluno tinha sessenta e nove anos e era Krishnamurti, mas eu não tinha escolha.

Sua saúde começou a mostrar sinais de melhora. Quando deixou Madras e foi para a escola em Rishi Valley, convidou-me para ir com ele. Posteriormente, ele me convidou para ir a Saanen, na Suíça. Insistiu que eu deveria ir lá para continuar nossas aulas e para ensinar a alguns de seus amigos. Garanti a ele de que antes eu deveria consultar meu professor em Madras, e então responderia.

Em Madras, meu pai me aconselhou a aceitar o convite. Mas senti que primeiro meu tio, Shri B.K.S. Iyengar, que por muitos anos havia ensinado tanto a Krishnaji quanto a outros amigos dele em Saanen, deveria aprovar este acordo. Eu escrevi para Krishnaji em conformidade.

Krishnaji se encontrou com meu tio em Mumbai e pouco depois recebi uma carta positiva. Então, mesmo hesitante, não tive opção a não ser aceitar o convite de Krishnaji.

Fui a Saanen em junho de 1966, onde fiquei com Krishnaji em Chalet Tannegg. Poucas semanas depois, meu tio chegou para dar suas aulas. Ele também ficou no chalé.

Ali estava eu, ensinando a Krishnaji, enquanto no mesmo chalé meu tio ensinava seus alunos. E um ano atrás era ele que estava ali ensinando a Krishnaji. O potencial para tensão era real, mas Krishnaji fez todo o possível para me deixar confortável apesar da situação delicada. Graças a seu cuidado, minha primeira visita à Europa saiu bem e nada aconteceu que prejudicasse minha relação com meu tio, com quem eu ainda estou nos melhores termos.

Krishnaji me apresentou a tantos visitantes ilustres. Ele me mostrou alguns dos melhores lugares na Suíça. Ele mesmo dirigia seu Mercedes e falava das características especiais do carro. Em todas as conversas, descobri que ele era muito bem informado sobre diferentes partes do mundo e vários costumes do ocidente.

Na verdade, minhas primeiras aulas sobre modos ocidentais à mesa foram com ele: “Não coloque os cotovelos sobre a mesa. Use o garfo com a mão esquerda. Não deixe os braços abertos. Não leve a boca ao prato. Aguarde pelo segundo prato.” Ele também me ensinou o valor de comer frutas primeiro, porque saladas devem preceder comida cozida, quais nozes eram melhores, como quebrar castanha-do-pará. Ele era tão meticuloso com os diferentes afazeres de casa. Ele costumava limpar o próprio banheiro. Eu costumava vê-lo, muitas vezes, limpando o banheiro, e ele dizia, “Devemos deixá-lo tão limpo quanto o encontramos antes de usá-lo.” Seus conselhos sobre lidar com pessoas e situações eram inequívocos:

“Não seja ridículo.”

“Seja você mesmo.”

“Preste atenção no outro tolo” [ao dirigir um carro].

Ele insistia em me levar aos melhores lugares quando jantávamos fora. Que gosto! Que cuidado com a visita. Eu podia contar com seu secretário para qualquer coisa que eu precisasse durante minha estadia.

Com frequência ele me levava para fazer caminhadas. Durante esses passeios, ele me incentivava a estudar, a aprender tudo que meu pai tinha para ensinar. Ele até me ofereceu uma bolsa de estudos para que eu não me afastasse dos estudos por necessidade, e isso foi quando ele mesmo enfrentava problemas financeiros. Ele me disse um dia, “Senhor, se necessário, venderei minha camisa e te enviarei dinheiro, mas estude, por favor, você deve estudar.”

No ano seguinte, quando Krishnaji retornou a Madras, liguei para Vasanta Viharfor para marcar uma consulta. O cavalheiro que me atendeu não me conhecia. Ele respondeu secamente, “Você não pode ver Krishnaji. Talvez após algumas semanas, não agora.” Eu respondi, “Senhor, não sou eu que procuro ver Krishnaji. Talvez seja Krishnaji quem me procura.” Ele ficou surpreso, “Qual é seu nome?” Eu dei a ele meu nome. Ele me disse de maneira tensa, “Aguarde.” Em alguns segundos ele voltou. “Desculpe-me. Krishnaji está vindo falar com você.” Quando Krishnaji atendeu, ele se desculpou, apesar de eu não ter mencionado a questão.

Krishnaji expressou o desejo de ver meu pai. Ele veio a nosso pequeno apartamento em Mandaveli e sentou-se no chão em frente a meu pai. Apesar de meu pai não ter conhecimento de inglês, Krishnaji certificou-se de que ele recebesse a seguinte mensagem: “Senhor, por favor, ensine a seu filho Desikachar tudo o que você sabe.”

Todo ano, ao longo de aproximadamente dez anos, eu dei aulas a Krishnaji — as vezes na Inglaterra, as vezes na Suíça, com frequência em Madras. Toda vez que o via, ele era um novo aluno pronto para aprender coisas novas. Sempre tive o privilégio de visitá-lo sempre que ele quisesse. No entanto, após o fim de nossas aulas formais, não o vi por vários anos, pois não queria perturbá-lo.

Em 1984, encontramo-nos após um intervalo de dois anos. Fiquei surpreso quando ele me desafiou, “Por que não nos encontramos nesses anos? Talvez você tenha se tornado um figurão.”

Encontramo-nos novamente em janeiro de 1985. Ele me convidou para almoçar. Sugeri que era eu quem deveria convidá-lo. “Talvez eu possa oferecer uma refeição de Vedic Chant?” Ele respondeu rapidamente, “Senhor, faça isso. Faça agora.” Eu sugeri convidar um pequeno grupo de pessoas para tornar o almoço mais interessante.

Nós fizemos o mantra. Ele ficou sentado atento por noventa minutos, às vezes cantando o mantra conosco. Ao fim da sessão, ele pediu um mantra específico, uma oração a Krishna, de Mukunda Mala.

Em janeiro de 1986, encontrei-o alguns dias antes de sua partida repentina para os Estados Unidos. Ele era o mesmo homem. Perguntou sobre minha família. Ele queria que eu repassasse para meu pai uma mensagem de respeito. Espontaneamente, fiz um pedido completamente incomum, “Senhor, peço que me dê sua benção.” Ele respondeu, “Não, senhor, somos amigos.”

Foi a última mensagem que ele me passou.

Krishnaji nunca aceitou o papel de “guru”, mas aqueles que, como eu, tiveram a oportunidade de ensinar algo a ele, sabem que ele era um aluno exemplar. Me pergunto se ele queria que fizéssemos o mesmo antes mesmo de buscar um professor. Há um ditado, “O professor aparece apenas para o aluno diligente.”

Eu não finjo saber o que Krishnaji ensinou através das palavras, mas ele ensinou tanto através do exemplo, pureza, pontualidade, dignidade de trabalho, respeito aos outros, humildade perante o professor independente de seu porte ou idade, entusiasmo para aprender totalmente, consideração por outras culturas.

Frequentemente dizem que ele não estava ciente dos problemas do homem comum. Mas sua preocupação com os indianos, os indianos pobres, que são explorados por todos, transbordava. Ele ficava triste quando a religião explorava os pobres. Ele costumava compartilhar todos esses sentimentos de tristeza, evidentes em seus olhos.

Krishnaji não existe mais. Eu, por exemplo, posso dizer que ele nunca demonstrou menos preocupação comigo do que com aqueles associados a ele. Ele sempre alertava, “Senhor, não se torne um guru, não explore, não vire um rico.”

Obrigado, Krishnaji. Irei lembrar de você e de seu conselho.

 

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