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A punição dos culpados

Interlocutor: Tenho a certeza que a maior parte de nós viu imagens autênticas em filmes e em revistas dos horrores e das barbaridades dos campos de concentração. O que deveria ser feito, na sua opinião, com aqueles que perpetraram estas atrocidades monstruosas? Não deveriam ser castigados?

Krishnamurti: Quem os há-de castigar? Não é o juiz muitas vezes tão culpado como o acusado? Cada um de nós edificou esta civilização, cada um contribuiu para a sua miséria (da civilização); cada um é responsável pelas suas ações (da civilização). Nós somos o resultado das ações e reações uns dos outros; esta civilização é um resultado coletivo. Nenhum país ou povo está separado de outro; estamos todos inter-relacionados, somos um. Quer o reconheçamos ou não, quando acontece um infortúnio a um povo, nós participamos dele tal como da sua boa sorte. Não se pode separar para condenar ou louvar.

O poder de oprimir é mau e cada grupo que seja grande e bem organizado torna-se uma potencial fonte do mal. Gritando sonoramente as crueldades de outro país você pensa que pode passar por alto as do seu próprio país. Não é só o derrotado mas cada país que é responsável pelos horrores da guerra. A guerra é uma das maiores catástrofes; o mal maior é matar outro. Uma vez que admita um mal assim no seu coração deixa então à solta incontáveis desastres menores. Você não condena a guerra em si mas aquele que é cruel na guerra.

Você é responsável pela guerra; você provocou-a pela sua ação quotidiana de ganância, malevolência, ira. Cada um de nós edificou esta civilização competitiva, impiedosa, em que o homem está contra o homem. Você quer extirpar as causas da guerra, da barbaridade nos outros, enquanto você próprio se entrega a elas. Isto conduz à hipocrisia e a mais guerras. Você tem que extirpar as causas da guerra, da violência, em si próprio, o que exige paciência e brandura, não a condenação sangrenta de outros.

A humanidade não precisa de mais sofrimento para o fazer compreender,  mas o que é necessário é que você seja consciente das suas próprias ações, que desperte para a sua própria ignorância e sofrimento e assim provoque em si compaixão e tolerância. Não deveria estar preocupado com castigos e recompensas,  mas com a erradicação em si próprio daquelas causas que se manifestam em violência e em ódio, em antagonismo e malevolência. Assassinando o assassino você torna-se como ele; torna-se no criminoso. Um mal não é emendado através de meios errados; só através dos meios corretos se pode alcançar um fim correto. Se quiser paz tem que empregar meios pacíficos, e o massacre, a guerra, só podem conduzir a mais massacre, a mais sofrimento. Não pode haver amor através do derramamento de sangue; um exército não é um instrumento de paz. Só a boa vontade e a compaixão podem trazer paz ao mundo, não o poder e a astúcia nem a mera legislação.

Você é responsável pela miséria e pelo desastre que existem, você que na sua vida quotidiana é cruel, opressivo, ganancioso, ambicioso. O sofrimento continuará até que você erradique em si mesmo aquelas causas que geram ira, ganância e crueldade. Tenha paz e compaixão no seu coração e encontrará a resposta certa às suas perguntas.

27/05/1945.

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