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28/05/1944 – T

Terceiro Diálogo em Oak Grove

No primeiro diálogo, tentei explicar que o pensamento correto só pode vir com autoconhecimento.

Sem o pensamento correto, você não pode saber o que é verdade. Sem conhecer a si mesmo, seu relacionamento, sua ação, sua existência cotidiana não tem base verdadeira. Nossa existência é um estado de oposição e contradição, e qualquer pensamento e ação que surja destes estados nunca poderá ser verdadeira. Antes que possamos entender o mundo, nossa conduta e nosso relacionamento com o outro, devemos nos conhecer. Quando o indivíduo se coloca em oposição à massa, ele está agindo na ignorância, no medo, pois ele próprio é o resultado da massa, ele é o resultado do passado. Não podemos nos separar ou nos colocar em oposição a qualquer coisa se quisermos entender isso tudo.

No segundo diálogo, de certa forma, tocamos um pouco no pensamento colocando-se em oposição e desta forma criando dualidade. Devemos entender isso antes de começarmos a nos preocupar com nossos pensamentos e atividades cotidianas. Se não entendermos o que é que provoca esse dualismo, essa oposição instintiva entre o seu e o meu, não vamos entender o significado do nosso conflito. Estamos conscientes do dualismo nas nossas vidas e seus constantes conflitos – querer e não querer, céu e inferno, o Estado e o cidadão, luz e escuridão. O dualismo não surge do desejo? Na vontade de se tornar, de ser, não está também a vontade de não se tornar?

No desejo positivo também há negação, e assim o pensamento-sentimento é apanhado no conflito de opostos. Através dos opostos não há como escapar do conflito, da tristeza.

O desejo de se tornar, sem entender a dualidade, é uma luta em vão; o conflito dos opostos cessa se soubermos lidar com o problema do desejo. O desejo é a raiz de toda ignorância e tristeza, e não há liberdade da ignorância e da tristeza, a não ser com o abandono do desejo. O desejo não deve ser posto de lado por mera vontade, pois essa vontade ainda é um desejo; não é para ser posto de lado por negação, pois tal negação é o resultado dos opostos. O desejo só pode ser dissolvido através da conscientização de suas muitas formas e expressões; através da observação e compreensão sem nenhum viés, o desejo é transcendido. O chama do desejo é consumida na chama da compreensão.

Vamos examinar o desejo de se tornar virtuoso. Há virtude quando há consciência do vício? Você se torna virtuoso colocando-se em oposição ao vício ou a virtude é um estado que não está ancorado nos opostos? A virtude surge quando há liberdade dos opostos. A generosidade, a bondade e o amor são opostos à ganância, a inveja e ao ódio? Ou o amor é algo que está além de todas as contradições? Ao nos colocarmos em oposição à violência, haverá paz? Ou a paz é algo que está além, transcendendo ambos os opostos? Não é virtude verdadeira a negação do tornar-se? Virtude é a liberdade do desejo.

Devemos nos conscientizar desse complexo problema da dualidade através da vigilância constante, não para corrigir, mas para entender; pois se não entendermos como cultivar o pensamento correto, de onde vem o esforço correto, então estaremos continuamente criando opostos com seus intermináveis ​​conflitos.

O pensamento correto vem através do conflito de opostos ou surge quando a causa dos opostos, o desejo, é observada, sentida e assim entendida? A liberdade dos opostos só é possível quando o pensamento-sentimento é capaz de observar sem aceitação, negação, ou comparação de suas ações e respostas; dessa conscientização vem um novo sentimento, uma nova compreensão que não está ancorada nos opostos. O pensamento-sentimento que está preso à dualidade não é capaz de entender o atemporal. Então, desde o início do nosso pensar, devemos estabelecer a base certa para o verdadeiro empreendimento, pois os meios corretos levam aos fins corretos e os meios errados produzirão fins errados. Meios errados não nos levarão em qualquer momento para os fins corretos, somente nos meios corretos estão os fins corretos.

Interrogante: Acho extremamente difícil entender a mim mesmo. Como devo começar?

Krishnamurti: Não é mesmo muito importante que se entenda a si mesmo acima de qualquer outra coisa? Pois, se não nos entendemos, não entenderemos mais nada, uma vez que a raiz da compreensão está em nós. Na compreensão de mim, eu vou entender meu relacionamento com outro, com o mundo; pois em mim, como em cada um, está o todo; eu sou o resultado do todo, do passado. Superficialmente, essa preocupação de entender a si mesmo pode aparentar ser egocêntrica, egoísta, mas se você considerar você verá que o que cada um de nós é, o mundo, o Estado, a sociedade é; e para produzir uma mudança vital ao ambiente, que é essencial, cada um deve começar consigo mesmo. Na compreensão de si e assim transformando-se, inevitavelmente haverá a mudança necessária e vital no Estado, no ambiente. O reconhecimento e a compreensão deste fato trarão uma revolução em nosso pensamento-sentimento. O mundo é uma projeção de si mesmo, seu problema é problema do mundo e sem você, não há o mundo. O que você é, o mundo é; se você é invejoso, ganancioso, hostil, competitivo, brutal, exclusivo, assim será a sociedade, assim será o Estado.

O estudo de si mesmo é extremamente difícil porque nós somos muito complexos. Você deve ter imensa paciência, não aceitação letárgica, mas alerta, uma capacidade passiva de observação e estudo. Tornar objetivo o estudo do que você é subjetivamente, internamente, é muito difícil.

A maioria de nós está em um turbilhão de atividade, internamente confusos e vagos, rasgados por muitos desejos conflitantes, negando e afirmando. Como esta máquina extremamente complexa pode ser estudada e compreendida? Uma máquina que está se movendo muito rapidamente, girando em uma velocidade absurda, não pode ser estudada em detalhes. Apenas quando ela for desacelerada você poderá começar a estudá-la. Se você puder desacelerar o seu pensamento-sentimento, então você poderá observá-lo, assim como num filme em câmera lenta em que você pode estudar o movimento de um cavalo enquanto corre ou salta um obstáculo. Se você parar a máquina, você não pode entender como ela funciona, pois ela se torna meramente uma matéria morta, se for muito rápido, você não poderá segui-la; mas para examiná-la em detalhes, para entendê-la completamente, é preciso que ela se mova devagar, girando suavemente. Só assim que a mente conseguirá trabalhar para seguir cada movimento do pensamento-sentimento. Para observar-se sem gerar fricção é necessário reduzir a velocidade.

Meramente controlar o pensamento-sentimento, freá-lo, é desperdiçar a energia necessária para compreendê-lo, pois assim o pensamento-sentimento estará mais preocupado em controlar, dominar, do que realmente pensar, sentir, compreender cada pensamento-sentimento.

Você já tentou pensar, sentir cada pensamento-sentimento? Quão difícil isso é! Pois a mente vagueia por todo o lugar, um pensamento nunca é terminado, um sentimento nunca é concluído. Eles flutuam de um assunto para outro, num movimento escravo para cá e para lá. Se a mente não pode se desacelerar, as implicações e o sentido interno do pensamento-sentimento não podem ser descobertos. Controlar seus devaneios é tornar-se raso e mesquinho, e então o pensamento-sentimento é gasto em checar, restringir, ao invés de estudar, examinar e compreender. A mente tem que se desacelerar, e como isso deve ser feito? Se ela se forçar a ser lenta, então a oposição é criada, o que cria ainda mais conflitos, mais complicações. Qualquer tipo de compulsão anulará seu esforço. Estar consciente de cada pensamento-sentimento é extremamente árduo e difícil; reconhecer aquilo que é trivial e deixá-lo para trás, estar ciente do que é significativo e persegui-lo penetrante e profundamente é um trabalho árduo que exige concentração legítima.

Eu gostaria de sugerir um caminho, mas não faça dele um sistema rígido e rápido, uma técnica tirânica ou o único caminho, uma rotina chata ou um dever. Nós sabemos como manter um diário, escrevendo todos os eventos que ocorrem ao longo do dia. Eu não sugiro que devemos manter um diário retrospectivo, mas tente escrever cada pensamento-sentimento sempre que tiver um pouco de tempo. Se você tentar, verá como isso é extremamente difícil. Quando você escreve, você só pode colocar um ou dois pensamentos porque o seu pensamento é muito rápido, desconexo e vago. E como você não pode escrever tudo, porque você tem outras coisas para fazer, depois de um tempo você vai perceber que outra camada de sua consciência está tomando nota. Quando novamente você tiver tempo para escrever, todos aqueles pensamentos-sentimentos os quais você não tenha dado atenção consciente serão “lembrados”. Então, no final do dia, você terá escrito o máximo possível de seus pensamentos e sentimentos. Claro que apenas aqueles que são sérios o suficiente farão isso. No final do dia, olhe o que você escreveu durante o dia. Este estudo é uma arte, pois daí vem o entendimento. O que é importante é como você estuda o que você escreveu, ao invés de meramente escrever.

Se você se opuser ao que você escreveu, você não entenderá. Isso é, se você aceitar ou negar, julgar ou comparar, você não vai entender o significado de nada do que está escrito, pois a identificação impede o florescimento do pensamento-sentimento. Mas se você examiná-lo suspendendo o julgamento, um conteúdo interior o será revelado. Fazer um exame de forma consciente e sem escolha, sem medo ou aprovação, é extremamente difícil. Dessa forma você aprende a desacelerar seus pensamentos e sentimentos, mas também, o que é extremamente importante, a observar com desapego tolerante todos os pensamentos-sentimentos, livre de julgamentos e críticas perversas. A partir disso surge uma profunda compreensão que é cultivada não só durante as horas de vigília, mas também durante o sono. A partir disso você perceberá que existe franqueza e honestidade.

Desta forma você será capaz de seguir cada movimento do pensamento-sentimento e nisso está envolvido não apenas a compreensão da camada superficial, mas também das muitas camadas escondidas da consciência. Por meio da autoconsciência constante, há um autoconhecimento mais profundo e mais penetrante. Como um livro de muitos volumes, em seu começo está o seu fim. Você não pode pular um parágrafo, uma página, para chegar ao final rápida e gananciosamente. Pois a sabedoria não é comprada com a moeda da ganância ou da impaciência. Ela vem a medida que o volume do autoconhecimento é lido com diligência – aquilo que você é de momento a momento, não em um momento em particular. Certamente isso significa trabalho incessante, um estado de alerta que não é apenas passivo, mas de investigação constante, sem a ganância pensando em um fim. Essa passividade é em si mesma ativa. Com quietude vem a mais alta sabedoria e bem-aventurança.

Interrogante: Estou muito deprimido, como vou superar isso?

Krishnamurti: Não é natural estar deprimido nos dias de hoje, onde há muita matança, confusão e tristeza? Porém, aprendemos quando estamos nos altos ou nos baixos? Nas alturas ou nas sombras, nos vales?

Nossas vidas são vividas em ondulações, para cima e para baixo, em grandes alturas e em grandes profundidades. Quando estamos nas alturas, estamos tão empolgados, tão consumidos de felicidade ou alegria, com uma sensação de plenitude, que as profundezas, as sombras, são esquecidas. A alegria não é um problema, a felicidade não procura uma solução, nesse estado de plenitude não há esforço por compreensão. A felicidade existe. Mas ela não dura e nós a perseguimos, nos lembrando, nos agarrando e nos comparando. Somente quando estamos nas profundezas, no vale, o conflito, a confusão e a tristeza surgem.

A partir disso, queremos fugir, desejando alcançar as alturas novamente. Mas nós não vamos a alcançar através da vontade, porque a alegria vem sem ser convidada. A felicidade não é um fim em si mesma; é um incidente de mais ampla e profunda compreensão.

Porém, se tentarmos compreender o conflito e a tristeza, começaremos a nos entender em relação ao conflito e a tristeza – como nós os abordamos ou os evitamos, como os condenamos ou os justificamos, como os racionalizamos ou os comparamos. Nesse processo, nós passamos a nos conhecer, nossos enganos, nossas fugas, nossas desculpas; você pode escapar da depressão, mas ela vai pegar você de novo e de novo. Mas se tentarmos entendê-la – e para isso devemos observar todas as reações em relação a ela – como tentamos escapar dela, como tentamos encontrar substituições para ela, nós perceberemos que o próprio desejo de superar indica a falta de compreensão. Através da conscientização das causas e significados da depressão, um entendimento mais amplo e profundo surge, no qual não há lugar para a depressão, para a auto piedade, para o medo.

Interrogante: Você falou sobre o Estado. Poderia explicar um pouco mais sobre isso?

Krishnamurti: O que você é, o seu Estado será. Se você é invejoso e apegado, buscando poder e riqueza, então você criará o Estado, o governo que representará você. Se você está procurando poder e domínio, como a maioria está na família, na cidade ou em o grupo, você criará um governo de opressão e crueldade. Se você é competitivo, mundano, você produz uma sociedade organizada para a violência, cujos valores são sensoriais, o que dará origem, em última instância, a guerras, a desastres e a tiranias. Tendo ajudado a criar uma sociedade, um Estado, de acordo com seus desejos, ele foge de você; torna-se uma entidade independente, dominadora e comandante. Mas somos nós, você e eu, que o produzimos através de nossa má vontade, ganância e mundanismo. O que você é, o Estado é.

A religião organizada, para existir, deve e se torna um parceiro do Estado e dessa forma acaba perdendo sua função verdadeira: orientar, ensinar, defender em todos os momentos o que é verdadeiro. Nessa parceria a religião torna-se outro meio de opressão e divisão. Se você, que é responsável pela criação do Estado, não se entende, como você pode produzir a mudança necessária no mecanismo do Estado? Você não pode efetuar uma mudança profunda, radical no Estado a menos que você se entenda, se liberte da sensualidade, do mundanismo e do anseio por fama. A menos que você se torne religioso no sentido mais fundamental da palavra, não uma qualquer religião organizada específica, seu Estado não será religioso e, portanto, responsável pela guerra e o desastre econômico, pela fome e pela opressão. Se você é nacionalista, separatista, racista, então você vai produzir um Estado que será a causa do antagonismo, opressão e miséria. Tal estado nunca poderá ser religioso; torna-se mal quanto maior e mais poderoso se torna. Eu estou usando a palavra religioso não em qualquer sentido especializado, não de acordo com qualquer doutrina, credo ou crença, mas no sentido de algo ou alguém que vive a vida sem o sentido da sensualidade, sem o mundanismo, sem buscar a fama pessoal ou a imortalidade.

Não sejamos confundidos pelas palavras, nomes ou rótulos que só trazem confusão como hindus, budistas, cristãos e muçulmanos ou americanos, alemães, ingleses e chineses. A religião está acima de todos os nomes, credos e doutrinas. É o caminho da realização do supremo, e a virtude não é de nenhum país, raça ou religião especializada. Nós devemos nos libertar dos nomes e rótulos, de sua confusão e antagonismo, e tentarmos buscar através da moralidade mais alta, aquilo que é. Assim você se tornará verdadeiramente religioso e assim será seu Estado. Só assim haverá paz e luz no mundo. Se cada um de nós puder entender que só pode haver unidade no pensamento correto, não em meros dispositivos econômicos superficiais – quando nos tornamos religiosos, transcendendo o desejo de imortalidade pessoal e poder, por mundanismo e sensualidade – perceberemos a profunda sabedoria interior de paz e amor.

Interrogante: Você não está apenas ensinando uma forma mais sutil de psicologia?

Krishnamurti: O que queremos dizer com psicologia? Não nos referimos ao estudo da mente humana, de si mesmo? Se não entendermos nossa própria maquiagem, nossa própria psique, nossos próprios pensamentos-sentimentos, então como poderemos entender outra coisa? Como você pode conhecer o que você acha que é verdade se você não tem conhecimento de si mesmo? Se você não se conhece, você não vai conhecer a realidade. A psicologia não é um fim por si própria. É apenas um começo. Ao estudar a si próprio, a fundação adequada é assentada para que se compreenda a estrutura da realidade. Você deve ter a fundação, mas ela não é um fim em si mesma, ela não é a realidade. Se você não assentar a fundação correta, a ignorância, a ilusão e a superstição virão à tona, da forma que elas existem no mundo hoje em dia. Você deve estabelecer a fundação certa com os meios corretos. Você não pode chegar ao correto através dos meios errados. O estudo de si mesmo é uma tarefa extremamente difícil e sem autoconhecimento e pensamento correto, a realidade final não é compreensível. Se você não está ciente e não entender a autocontradição, a confusão e as diferentes camadas de consciência, então sob o que você irá construir? Sem o autoconhecimento, aquilo que você constrói, suas formulações, suas crenças e suas esperanças terão pouco significado.

Compreender-se exige muito desapego e sutileza, perseverança e penetração, sem dogmatismo, sem afirmação, sem negação e sem comparação, que levam ao dualismo e a confusão. Você deve ser seu próprio psicólogo, você deve estar ciente de você mesmo, pois em si próprio está todo conhecimento e sabedoria. Ninguém pode ser um especialista sobre você. Você tem que descobrir por si mesmo e assim se libertar; ninguém mais pode ajudá-lo a libertar-se da ignorância e da tristeza. Você cria sua própria tristeza e não há salvador, a não ser você mesmo.

Interrogante: Eu entendo você por dizer que que através da prática constante do discernimento instantâneo, da causa de todos os pensamentos que entram na mente, o verdadeiro eu começa a ser revelado?

Krishnamurti: Se assumirmos que existe um verdadeiro e um falso eu, então não entenderemos o que é verdade. Você não vê que é assim: estamos em uma viagem de descoberta. Para descobrir, o pensamento-sentimento não deve ser entupido por nenhuma hipótese ou crença pois eles são fatores impeditivos. Para descobrir algo deve haver liberdade, deve haver um estado de alerta passivo. O conhecimento dos outros é de pouco valor na descoberta da verdade. Deve-se encontrá-la por si próprio, ninguém pode dá-la a você, ninguém pode lhe trazer sabedoria. A verdade não é uma recompensa, não é o resultado de uma prática e não é para ser pressuposta nem formulada. Se você a formular você a perderá, sua hipótese apenas irá obscurecê-la. Através da consciência constante, você descobrirá o que é verdadeiro por si mesmo. É esta descoberta que importa, pois liberará o pensamento da ignorância e da tristeza; o que você descobrirá nesta jornada que vai libertá-lo, não suas afirmações e negações do verdadeiro e do falso. Descobrir como o pensamento-sentimento está arraigado no credo, na crença, descobrir o significado do conflito dos opostos, tornar-se consciente da luxúria, da mundanidade, do desejo de autoperpetuação, é ser libertado da ignorância e da tristeza.

Através da autoconsciência vem o autoconhecimento e o pensamento correto. Não há pensamento correto sem autoconhecimento.

Interrogante: Você quer dizer que pensamento correto é um processo contínuo de conscientização enquanto o pensamento certo é meramente estático? Por que pensamento certo não é pensamento correto?

Krishnamurti: O pensamento correto é um processo contínuo nascido da autodescoberta, do autoconhecimento consciente. Não há começo nem fim para este processo, então o pensamento correto é eterno.

O pensamento correto é atemporal; não está ligado pelo passado, pela memória, não está limitado por uma formula. Nasce da liberdade do medo e da esperança. Sem a qualidade viva do autoconhecimento, pensamento correto não é possível.

Pensar corretamente é algo criativo, pois é um processo constante de autodescoberta. O pensamento certo é pensamento condicionado; é um resultado, é um subproduto, é uma criação; é o resultado de um padrão, da memória, do hábito, da prática. É imitativo, acumulativo, tradicional. Se molda através do medo e da esperança, através da ganância e do desejo, através da autoridade e da cópia.

O pensamento-sentimento correto vai além dos opostos, enquanto o pensamento certo ou condicionado é oprimido pelos opostos. O conflito dos opostos é estático. O pensamento correto é o resultado de como pensar, não do que pensar. Mas a maioria de nós foi treinada ou está se treinando no que pensar, que é pensar em termos de condicionamento. Nossa civilização é baseada no que pensar, que nos é dado através de religiões organizadas, através de partidos políticos e suas ideologias, e assim por diante. A propaganda não proporciona pensamento correto, ela lhe diz o que pensar.

Através da autoconsciência, o padrão, a cópia, o hábito, o pensamento condicionado é descoberto; essa percepção começa a libertar o pensamento-sentimento da escravidão, da ignorância; através da constante conscientização e autoconhecimento, que trazem o pensamento correto, há a quietude criativa da realidade. A ânsia por segurança provoca o pensamento condicionado; buscar a certeza é encontrá-la, mas não é o real. A mais alta sabedoria vem com essa quietude criativa da mente-coração.

28 de Maio de 1944.

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