Inicial

Professor P. Krishna

CENTRO EDUCACIONAL RAJGHAT, VARANASI, ÍNDIA

 

A primeira vez que me deparei com os ensinamentos de Krishnamurti foi quando eu ainda era estudante, aos dezesseis anos. Foi com um pequeno panfleto que descrevia suas palestras para jovens estudantes da Índia. O que me atraiu foi sua abordagem direta, a simplicidade do que falava e o fato de lidar com questões do dia a dia. Não era um discurso abstrato e filosófico do tipo com o qual nos deparamos quando conversamos com um professor de filosofia. Senti grande interesse e, ao longo de minha leitura, descobri que várias questões que vinham surgindo em minha mente adolescente eram discutidas naquele livreto. Encontrei uma abordagem muito inteligente e realista que me atraiu para essas questões. Por exemplo, Krishnamurti fazia questionamentos simples, tal como, “Por que você levanta quando o professor entra na sala? Por que se veste assim? Por que coloca uma tika na testa? Por que pratica o puja? O respeito é uma forma de medo?” Ele questionava tudo a seu redor e do cotidiano. Isso gerou em mim grande interesse pois eu sentia que não compreendia o modo que eu estava vivendo. Conforme eu lia mais, descobria cada vez mais coisas que me agradavam. Por exemplo, aprendi com seus ensinamentos que a verdadeira transformação tem que vir de dentro e não do exterior. Assim, não é a prática da virtude que é importante, mas sim ser virtuoso. Praticar atos de bondade não é importante. O importante é ser bondoso em seu interior, e há uma diferença entre os dois. É algo que não havia me ocorrido antes, porque todas religiões nos pediam para levar uma vida virtuosa e descreviam a virtude em termos de ações virtuosas. Ali estava um homem dizendo que a prática não é tudo, que a não ser que sejamos bondosos em nosso interior, praticar atos de bondade produz apenas uma dicotomia entre o que somos e o que queremos ser, e esse conflito nos perturba.

Aprendi sobre Krishnamurti no livro e então o conheci. Achei-o bem diferente da imagem de um santo imperturbável que minha mente havia construído. Conhecê-lo provocou muitos questionamentos em minha mente.

Em segundo lugar, os ensinamentos de Krishnamurti abalaram minha fé na razão. Até me deparar com ele, acreditava que se fosse bem racional e pudesse racionalizar as coisas bem, poderia alcançar qualquer coisa. Após ler seus trabalhos, aprendi a questionar isso, porque seus ensinamentos me mostraram claramente que nossa mente costuma funcionar como nosso advogado particular, justificando e defendendo qualquer opinião com a qual se identifica. É comum nos identificarmos com uma visão que nos convém e a mente encontrar todo tipo de razão para provar que é virtuosa. Isso nos leva a pensar que estamos fazendo a coisa certa enquanto, na verdade, estamos fazendo o que desejamos fazer.

Ficou claro para mim que apenas aprimorar o intelecto, aprender cada vez mais sobre filosofia ou ler as opiniões de diferentes pessoas não faz muito. Um mero entendimento intelectual não nos transforma. Um professor de filosofia não é tão diferente de um professor de física ou de qualquer outro indivíduo. Na verdade, Krishnamurti ressalta esse ponto com muita clareza, que o problema é o mesmo para todos os seres humanos, do homem mais pobre ao maior empresário, ao filósofo, ao homem religioso. Todos enfrentam os mesmos problemas psicológicos. Estão todos tentando conquistar algo e se frustram quando não conseguem.

Quando o conheci, vi com meus próprios olhos que ele não era como um intelectual comum dando uma boa palestra ou em uma aula muito instrutiva, ou alguém que pudesse analisar as coisas de maneira melhor do que os outros, mas sim um profeta que estava realmente vivendo seus ensinamentos. Isso fez toda a diferença para mim. Agora, não estávamos falando com um professor ou um filósofo, mas estávamos na presença de um profeta que havia visto o que ele queria que os outros vissem, que disse não poder compartilhar suas percepções, que os outros devem descobri-las por si mesmos. Não há autoridade em um mundo que possa nos fornecer a percepção, e isso me levou a perceber que não devo olhar para os outros, devo ficar de pé com meus próprios pés e ver a verdade dentro de mim. O efeito básico dos ensinamentos de Krishnamurti é abrir as portas e as janelas de nossa mente. Se não as fecharmos novamente, continuamos aprendendo no decorrer da vida — vivemos com perguntas ao invés de viver com respostas.

 

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